Natal de ponta cabeça, cabeça em pé e algum sentimento.

Final de mais um ano e, com ele, as reflexões sobre como aproveitei (ou não) meu tempo, o que deveria ter feito (ou não), se o saldo final foi positivo (ou não). Acontece que 2013 começou com um pedido muito simples, porém essencial: PAZ. Lembro de ter pedido com todas as forças na virada do ano que meu coração fosse capaz de se acalmar, que as mágoas se tornassem pequenas ou, então, sumissem por completo. Pedi para parar de perder o sono e o ar quando pensasse em algumas pessoas, quando pensasse em como era meu relacionamento com elas e em que ele se transformou.

Pedi muita paz, porque meu coração estava magoado, ferido. E não foi apenas a ferida causada por uma decepção familiar ou amorosa mas, além disso, era uma decepção comigo mesma. Eu estava decepcionada por não conseguir perdoar, por manter a raiva, o ódio, o incômodo. Queria parar de sofrer e, se possível, também parar de fazer outros sofrerem.

Se consegui realizar? Acredito que sim. Mas isso só foi possível quando admiti para mim mesma que, quando o assunto é sentimento, a gente tem que seguir o coração. Como já diria um poeta por aí, se perceber que tiver que seguir, siga… Se achar que precisa voltar, volte… E foi exatamente isso que fiz. Deu uma acalmada por dentro, estou mais feliz.

Entretanto, como nem tudo é rosas, esse ano tive que experimentar o primeiro natal após a separação dos meus pais. Aliás, talvez a melhor definição seja a de que a separação ocorreu no natal. E aí me senti naquela corda bamba de circos, sabe? Tentando manter o equilíbrio pra não despencar de um lado e nem do outro, tentando manter os olhos a frente para seguir no fio, caminhar seguramente até a outra ponta.

E pensar que ano passado estava eu, meus pais e meus irmãos viajando, passamos o natal e o ano novo todos juntos. Desde a época em que começou minha maratona de vestibulares eu não passava o ano novo com todo mundo junto e misturado. O natal a gente até ficava junto, mas eu sempre tinha aquela cobrança de estudar e não conseguia aproveitar nada… enfim, é muito esquisito olhar para um ano atrás e perceber que minha vida virou de cabeça para baixo. Nesse ano me senti realmente dividida entre as novas ‘duas famílias’, e confesso que tenho o medo de perder os laços com meu pai. Além dessa sensação desconfortável, ter que aturar olhares e perguntas de familiares sobre o divórcio dos meus pais têm sido um saco. Aliás, todo esse processo tem sido um saco.

E por todo esse redemoinho de sentimentos estar ocorrendo agora, no natal e no ano novo, é que tenho pensado mais do que nunca sobre o significado desses dois momentos. Há quem diga que são apenas datas comerciais, hipócritas e blablablás. É verdade, não nego. O apelo comercial desses períodos é gigante e já ‘faz parte’. Mas não é sobre isso que quero falar.

Queria dizer que tenho pensado a todo instante para quais caminhos estou conduzindo minha vida e meus relacionamentos, e se estou segura de mim. Pensado se é possível reconstruir relacionamentos ou reforçar os laços já existentes. Pensado se será possível alguma vez, algum ano, me sentir bem em estar com a família (tanto do meu pai quanto da minha mãe) reunida e me sentir bem, me sentir realmente parte dela. Porque estou farta de precisar cumprir protocolo familiar e estar apenas em corpo nos lugares, com a mente além em qualquer lugar distante. Estou farta de precisar sorrir e fingir uma falsa intimidade com familiares que, durante todo o resto do ano, troco meia (ou nenhuma) palavra.

Também tenho pensado sobre relacionamento. O começo, o meio, e o fim (ou não) de uma amizade, de um amor, de um vínculo familiar. Não acredito em paixões eternas e nem que os pais e o filhos devem a tudo perdoar e a todo custo manter o vínculo que os une. Mas acredito que, por mais que as algumas coisas mudem (e muito), outras se mantém (ou deveriam se manter) intactas.

Por exemplo, quando um relacionamento amoroso tem um fim, embora as duas partes estejam magoadas (uma mais que a outra, ou as duas destruídas), é preciso que a ruptura, a qual por si só já é desgastante, se dê de forma mais respeitosa possível. É preciso lembrar das coisas boas, do passado junto, e tentar não magoar ainda mais. O mesmo vale para os amigos e a família.

Sabe, porque as pessoas simplesmente ligam o ‘foda-se’ para os sentimentos de quem, outrora, foi seu/sua companheira de vida? Não estou pedindo que fiquem juntos para sempre, amigos de berço, mas sim um mínimo de cuidado para evitar esfacelar ainda mais o que já tá trincado ou aos cacos. Um mínimo dever de cuidado e respeito com o próximo, penso eu. Fins fazem parte da vida, mas não precisam ser tão dolorosos.

O bom de tudo isso, de todos questionamentos e sentimentos revirados, é que toda bagunça precede uma boa arrumação. E por mais difícil que seja, é bom tentar colocar a casa em ordem, a mente em ordem. Seguirei tentando.

“Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente!
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-as.
Se perder um amor, não se perca!…
Se o achar, segure-o!
Circunde-se de rosas e ame…
O mais é nada”.

Fernando Pessoa

 

Sensações e belas-artes

Ontem, à caminho do trabalho, passei em frente ao antigo Cinema Belas Artes. Quando olho para ele, dá um aperto no coração. As paredes vermelhas de outrora, agora tornaram-se painéis para pichações, rabiscos, colagens. A tinta está descascada. Moradores de rua se abrigam em baixo dele. A parede de vidro, que permitia a visão do interior, tem a transparência ocultada por papéis colados.

É engraçado e doloroso pensar que, não faz tanto tempo assim, estive lá dentro, comi da sua pipoca e assisti a um ‘noitão’. Era um local de fácil acesso pelo metrô e o seu diferencial eram os filmes de vários países, nenhum deles blockbuster. Era um cinema-arte. Me emocionei muito com os filmes que lá vi, pena que não lembro do nome de quase nenhum deles. Lembro que o ‘noitão’ do qual participei tinha como tema o feminismo e, por essa razão, os filmes retratavam a realidade de diferentes mulheres em diferentes contextos.

 Um dos três filmes era francês e narrava a vida de uma mulher, esposa fiel, que passa a ter encontros amorosos com o jardineiro. A sexualidade e o prazer feminino eram discutidos através da traição da esposa infeliz. O segundo filme quase nada lembro, mas retratava a vida de uma esposa, mãe e filha super dedicada à família, mostrando seu dia a dia e seus conflitos pessoais, em especial o jeito de lidar com o pai idoso.

E o terceiro filme, que infelizmente eu também não lembro o nome (memóriazinha boa viu!) era sobre uma mulher, já adulta e de classe social humilde, que acabara de ingressar em uma das melhores universidades do país. Seu desejo era se tornar professora e, se consigo me recordar bem, ela conversava com um professor seu através de cartas, nas quais comentavam sobre obras literárias e a vida.

 Foi o último filme da noite e eu estava cansada, mas lembro de ter a atenção prendida em uma cena na qual a moça, contando para a família sobre seu ingresso na universidade, foi repreendida pela família e inclusive pelo marido. Porque lugar de mulher de família não era na universidade, conhecendo gente e discutindo política, ciência, artes. Mulher boa era a boa esposa, agradável, prestativa, multitarefa. E, durante o jantar com a família, seus parentes questionaram quando seria mãe, porque estava demorando tanto de engravidar. Quando chegou em casa com o marido, ele descobriu que ela estava usando pílula anticoncepcional escondido dele e discutiram muito. Então, ela escolheu deixar o marido e continuar a estudar, sem filhos.

 Acho que de todos os filmes foi o que mais se aprofundou na temática do emprego e da pressão familiar para cumprir o ‘papel’ biológico que a sociedade espera que tenhamos. Ser mãe é algo maravilhoso e, de uns tempos para cá, depois de ver algumas conhecidas engravidando e tendo seus bebês, tenho pensado muito sobre quão mágico é gerar um outro ser humano, e ter ele como parte sua durante tão curto espaço de tempo. Mas, embora a gravidez seja tão bela e um momento tão importante na vida de qualquer mulher, é muito difícil curtir toda essa magia quando se está preocupada em crescer profissionalmente. Uma coisa não anula a outra, mas planejamento é essencial e, por isso, a gravidez tem perdido espaço para o trabalho.

 Depois que o Belas Artes fechou, nunca mais fui atrás do cinema-arte. Sequer baixei filmes. Nunca mais tive a atenção despertada e o coração tocado por imagens e sons. Confesso que também não fui atrás. O cinema-arte pede a mente limpa e o coração aberto, e ultimamente também estive fechada para essas experiências. É algo esquisito e não sei se só eu sou assim, mas realmente me emociono com o que vejo e é muito fácil demonstrar desgosto, irritação, medo, alegria e até mesmo chorar ao ver um filme. E sem o belas-artes, parece que não tenho mais as companhias silenciosas que me acompanhavam nessa experiência doida de sensações. Fiquei solitária.

Bom, depois de toda essa revolta de sensações e memórias, vou tentar voltar a dedicar dinheiro, noites e companhias com o cinema-arte e seus filmes sinestésicos. Ainda não sei qual, mas estou na busca.

 

Onde quero estar

Há quatro anos atrás eu terminava o terceiro colegial. Com ele, também terminaram algumas angústias daquela época, como o fato de ser obrigada a assistir uma aula que eu não entendia nada e que, muitas vezes, as palavras de ‘incentivo’ dos professores só me colocavam mais pra baixo. Naquela época eu ainda não tinha muita noção de como a vida seria depois que todos meus passos deixassem de ser vigiados por professores e coordenadores. Engraçado. Até então eu tinha que fazer o que todos faziam, o que era esperado que todos fizéssemos. Era simples: acordar cedo, chegar em casa no horário, assistir às aulas…. almoçar, assistir mais aulas e depois ir para casa. Então, eu dormia horas a fio em uma soneca deliciosa à tarde. Acordava, enrolava usando o PC e de vez em quando fazia alguma lição. Dois anos antes, no primeiro colegial, eu até que fazia mais lições. Enfim, a vida era simples mas eu me sentia muito cobrada, e vigiada.

Há dois anos atrás eu estava no meu segundo ano de cursinho, pós primeira fase da Fuvest. Aquela ansiedade insana, a pressão pessoal que me sufocou e tirou várias noites de sono. Mas, em compensação, eu me sentia bem livre. Assistia as aulas porque precisava, mas precisava porque eu queria precisar. Estava ali porque queria estar, ainda que não fosse a coisa mais legal do mundo. Fazia o que tinha que fazer, porque era necessário. Nessa época aprendi (ou tentei aprender) a lidar melhor com expectativas, frustrações, e a treinar meu psicológico para fazer o que não queria – sempre pensando em um objetivo maior: estudar Direito na USP. Deu certo. Suportei muito, ignorei muita coisa. Graças a Deus não tenho o que reclamar do cursinho, fui muito feliz naquele ambiente, fiz amigos inesquecíveis, meu relacionamento com meus pais e com meu namorado da época era bom. O meu maior desafio nesses anos foi eu mesma. Lidar com os próprios defeitos e vaidades não é fácil. Ser derrotado por si mesmo é uma das piores coisas que pode acontecer com quem luta, luta muito, mas se cansa. Mas aí, quando eu finalmente admiti para mim mesma que tinha feito tudo que estava a meu alcance, quando admiti que tinha treinado duro o ano inteiro e já não tinha o que fazer, quando me conformei de que não havia mais nada que pudesse ser feito e, portanto, minha consciência estava limpa, foi quando adquiri a humildade e serenidade necessárias para manter a mente tranquila e o corpo descansado para a prova. Não era admitir derrota antes da hora, não entreguei os pontos à sorte, pelo contrário, confiei em meu trabalho e sabia que se não fosse pra ser, é porque não era pra ser. Mas foi. E cá estou eu, digitando esse texto dentro do laboratório de informática (vulgo Pro-Aluno) da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, popularmente conhecida como Direito USP (ou San Fran, para os mais chegados).

E hoje estou aqui, sentada nessa cadeira, digitando um texto porque, nesse momento, me veio à mente as razões pelas quais estou aqui e o que quero daqui para frente. Agora há pouco li um texto sobre intercâmbio, e pensar em intercâmbio é sentir saudades do que nunca vivi – até então. Engraçado. Agora tenho emprego, chefe, horário. Também tenho que ver aula, estudar. Mas, de verdade, acho que nunca me senti tão livre em toda minha vida. Tenho muitos sonhos que me dão saudade – ainda vou matar toda essa saudade e realizá-los, um a um – , mas ao mesmo tempo sinto que estou seguindo o caminho que eu escolhi. E se necessário for, vou mudar. Mas, onde quero estar daqui alguns anos? Será que terei realizado meus desejos ou terei desistido deles? Será que conseguirei conciliar todas as minhas vontades e planos? Por enquanto não tenho nada muito definido ainda, mas sei que quero viajar muito, viajar pelo mundo, por todos os caminhos possíveis e até inimagináveis. Será que vou conseguir?? O jeito é se jogar sem medo, tendo a certeza que mais pra frente eu descubro algo de bom.

Nem sei porque comecei a escrever esse texto.

Mas, sempre me esqueço de que o que eu sinto não precisa ter razão.

E eu sentia que precisava escrever.