Enfim, gente grande.

“Felicidade precária, essa sua.
Começa só às seis da sexta, e termina às doze de domingo.
Me diz amigo, adianta viver em vão?
Conformou-se com o não
“Não tenho tempo, não posso, não quero, não gosto”
E esqueceu-se de todo o resto?
Do nascer do sol. Do brilho bonito dos cabelos castanhos à luz do sol. Do pôr do sol.
Do abraço. Do cheiro. Do beijo.
Do toque macio do cobertor no corpo, molinho e quentinho, recém acordado.
Do cheiro do café com leite, pão na chapa bem quentinho.
Esqueceu-se do toque da água fresca no calor intenso do verão?
Esqueceu-se do toque morno, quase abraço, de um bom banho no inverno?
Esqueceu-se das risadas após os filmes da madrugada?
Amigo, você se esqueceu de como éramos até então?
Pois faço questão de recordá-lo, quem era.
Era o abraço. Era a motivação. Era a outra opinião.
Era contestação, era suspiro, era até a vergonha (de vez em quando, sempre boa)
Esqueceu-se de como é andar livre? Andar sem medo, andar de boa.
Andar na Sé.
Esqueceu-se de como é não
 pegar transito e sentir o cheiro das pessoas? Quem sabe fugir do horário de pico com um bom café e conversa fora.
Amigo, eu te envio mensagens pra tentar te ligar.
Amigo, a vida é mais do que o ir e vir.
A vida é todo dia.
Tudo no dia.
Tudo.”

Priscila Esteves

Criei o Warum Nicht em 2009, época na qual deixava a vida de colegial para dar início, em teoria, à vida adulta. Nesse meio tempo, fiquei dois anos no limbo que é o cursinho (não adianta nada ter 18 anos e viver, ainda, vida de 15), até conseguir a tão sonhada faculdade pública. Parece que foi ontem que me lamentava (muitas vezes) nas páginas virtuais desse quase-diário sobre a vida de vestibulanda. Não só sobre o vestibular em si, mas sobre toda a indefinição dessa fase, cheia de cobranças e expectativas.

Superado tudo isso, cá estou eu. Universitária e funci… Oii? ah sim, sim. Funcionária pública, e universitária.

O sonho simples de conseguir passar no vestibular foi procedido pela expectativa do primeiro trabalho. Embora não tivesse sido fruto de muito planejamento ou sonho, o fato é que prestei concurso, passei, e cá estou, TRABALHANDO.

Oito horas, férias de 30 dias depois de um ano trabalhado, metade do décimo terceiro no mês do aniversário e outra metade em dezembro. Parte dos meus vencimentos sofrem desconto na folha de pagamento devido ao imposto de renda (ou, comumente conhecido, o Leão), e outra parte devido à contribuição previdenciária. (Mas que p* é imposto de renda ou contribuição previdenciária?)

Até pouco tempo atrás eu só conhecia tais expressões de ouvido, e é difícil acreditar que a partir de agora serão parte da minha realidade. Mas não só ganhei novas palavras para o cotidiano, como também novas preocupações. O que vai ser do meu futuro? Sigo área pública ou área privada? Quais são os melhores locais para se trabalhar? Como conciliar rotina de estudos com trabalho? Como encontrar tempo para pesquisar ou escrever artigos? Como conciliar o tempo entre a faculdade e o trabalho? COMO VIVER SÓ COM 30 DIAS DE FÉRIAS?? (Essa é uma das questões mais duras!)

É curioso como a vida adulta chega implacável, ainda que de mansinho. E há como fugir? Sem trabalho, não tem dinheiro. Sem dinheiro, não tem viagens, festas ou consumo. E se não tiver dinheiro para poder fazer o que eu quero, ou comprar o que quero, do que adianta estar desempregado? Mas, ainda que empregado, do que adianta receber um bom salário sem ter tempo de usufruí-lo com prazer? E, no limite das indagações, do que adianta ter pequenos prazeres financiados pela labuta, se a própria ocupa mais da metade do meu dia e não me traz prazer algum? (Se bem que não posso reclamar de prazer porque, entre meus amigos, sou uma das únicas pessoas que se sentem úteis e gostam do que fazem. Sou privilegiada (: ) 

Mais curioso ainda é ver que esses assuntos, digamos, profissionais, agora preenchem quase todo o tempo das conversas de bar com meus amigos. Amigos que cresci junto. Amigos que eram tão adolescentes quanto eu há cinco anos atrás.  (P* QUE P* JÁ FAZ CINCO ANOS QUE DEIXEI A ESCOLA!, respira!) Amigos, que como eu, agora se preocupam com ter dinheiro suficiente para bancar um aluguel perto do local de trabalho – porque comprar uma casa ou apartamento ainda é sonho inversamente proporcional à quantia paga pela nossa força de trabalho – e, quem sabe, com alguma sorte, encontrar alguém legal (e limpinho) para dividir as dívidas.

Sempre achei que crescer fosse doer, mas até que eu gosto dessa dorzinha. Dá medo, mas também tem um quê de prazer, prazer em saber que o futuro quem faz sou eu. Prazer em me sentir exausta às sextas-feiras, mas ter meu próprio dinheiro para bancar minhas saídas. Prazer em poder planejar viagens, conhecer o mundo, sem depender do trabalho tão suado de quem me apoiou a vida inteira. Prazer em poder planejar, quem sabe, futuramente, ter a própria casa. Prazer em saber que um dia poderei ajudar meus pais, que tanto me ajudaram a chegar onde cheguei.

Sem pedir licença, gente grande agora somos todos nós.

Sensações e belas-artes

Ontem, à caminho do trabalho, passei em frente ao antigo Cinema Belas Artes. Quando olho para ele, dá um aperto no coração. As paredes vermelhas de outrora, agora tornaram-se painéis para pichações, rabiscos, colagens. A tinta está descascada. Moradores de rua se abrigam em baixo dele. A parede de vidro, que permitia a visão do interior, tem a transparência ocultada por papéis colados.

É engraçado e doloroso pensar que, não faz tanto tempo assim, estive lá dentro, comi da sua pipoca e assisti a um ‘noitão’. Era um local de fácil acesso pelo metrô e o seu diferencial eram os filmes de vários países, nenhum deles blockbuster. Era um cinema-arte. Me emocionei muito com os filmes que lá vi, pena que não lembro do nome de quase nenhum deles. Lembro que o ‘noitão’ do qual participei tinha como tema o feminismo e, por essa razão, os filmes retratavam a realidade de diferentes mulheres em diferentes contextos.

 Um dos três filmes era francês e narrava a vida de uma mulher, esposa fiel, que passa a ter encontros amorosos com o jardineiro. A sexualidade e o prazer feminino eram discutidos através da traição da esposa infeliz. O segundo filme quase nada lembro, mas retratava a vida de uma esposa, mãe e filha super dedicada à família, mostrando seu dia a dia e seus conflitos pessoais, em especial o jeito de lidar com o pai idoso.

E o terceiro filme, que infelizmente eu também não lembro o nome (memóriazinha boa viu!) era sobre uma mulher, já adulta e de classe social humilde, que acabara de ingressar em uma das melhores universidades do país. Seu desejo era se tornar professora e, se consigo me recordar bem, ela conversava com um professor seu através de cartas, nas quais comentavam sobre obras literárias e a vida.

 Foi o último filme da noite e eu estava cansada, mas lembro de ter a atenção prendida em uma cena na qual a moça, contando para a família sobre seu ingresso na universidade, foi repreendida pela família e inclusive pelo marido. Porque lugar de mulher de família não era na universidade, conhecendo gente e discutindo política, ciência, artes. Mulher boa era a boa esposa, agradável, prestativa, multitarefa. E, durante o jantar com a família, seus parentes questionaram quando seria mãe, porque estava demorando tanto de engravidar. Quando chegou em casa com o marido, ele descobriu que ela estava usando pílula anticoncepcional escondido dele e discutiram muito. Então, ela escolheu deixar o marido e continuar a estudar, sem filhos.

 Acho que de todos os filmes foi o que mais se aprofundou na temática do emprego e da pressão familiar para cumprir o ‘papel’ biológico que a sociedade espera que tenhamos. Ser mãe é algo maravilhoso e, de uns tempos para cá, depois de ver algumas conhecidas engravidando e tendo seus bebês, tenho pensado muito sobre quão mágico é gerar um outro ser humano, e ter ele como parte sua durante tão curto espaço de tempo. Mas, embora a gravidez seja tão bela e um momento tão importante na vida de qualquer mulher, é muito difícil curtir toda essa magia quando se está preocupada em crescer profissionalmente. Uma coisa não anula a outra, mas planejamento é essencial e, por isso, a gravidez tem perdido espaço para o trabalho.

 Depois que o Belas Artes fechou, nunca mais fui atrás do cinema-arte. Sequer baixei filmes. Nunca mais tive a atenção despertada e o coração tocado por imagens e sons. Confesso que também não fui atrás. O cinema-arte pede a mente limpa e o coração aberto, e ultimamente também estive fechada para essas experiências. É algo esquisito e não sei se só eu sou assim, mas realmente me emociono com o que vejo e é muito fácil demonstrar desgosto, irritação, medo, alegria e até mesmo chorar ao ver um filme. E sem o belas-artes, parece que não tenho mais as companhias silenciosas que me acompanhavam nessa experiência doida de sensações. Fiquei solitária.

Bom, depois de toda essa revolta de sensações e memórias, vou tentar voltar a dedicar dinheiro, noites e companhias com o cinema-arte e seus filmes sinestésicos. Ainda não sei qual, mas estou na busca.