Onde quero estar

Há quatro anos atrás eu terminava o terceiro colegial. Com ele, também terminaram algumas angústias daquela época, como o fato de ser obrigada a assistir uma aula que eu não entendia nada e que, muitas vezes, as palavras de ‘incentivo’ dos professores só me colocavam mais pra baixo. Naquela época eu ainda não tinha muita noção de como a vida seria depois que todos meus passos deixassem de ser vigiados por professores e coordenadores. Engraçado. Até então eu tinha que fazer o que todos faziam, o que era esperado que todos fizéssemos. Era simples: acordar cedo, chegar em casa no horário, assistir às aulas…. almoçar, assistir mais aulas e depois ir para casa. Então, eu dormia horas a fio em uma soneca deliciosa à tarde. Acordava, enrolava usando o PC e de vez em quando fazia alguma lição. Dois anos antes, no primeiro colegial, eu até que fazia mais lições. Enfim, a vida era simples mas eu me sentia muito cobrada, e vigiada.

Há dois anos atrás eu estava no meu segundo ano de cursinho, pós primeira fase da Fuvest. Aquela ansiedade insana, a pressão pessoal que me sufocou e tirou várias noites de sono. Mas, em compensação, eu me sentia bem livre. Assistia as aulas porque precisava, mas precisava porque eu queria precisar. Estava ali porque queria estar, ainda que não fosse a coisa mais legal do mundo. Fazia o que tinha que fazer, porque era necessário. Nessa época aprendi (ou tentei aprender) a lidar melhor com expectativas, frustrações, e a treinar meu psicológico para fazer o que não queria – sempre pensando em um objetivo maior: estudar Direito na USP. Deu certo. Suportei muito, ignorei muita coisa. Graças a Deus não tenho o que reclamar do cursinho, fui muito feliz naquele ambiente, fiz amigos inesquecíveis, meu relacionamento com meus pais e com meu namorado da época era bom. O meu maior desafio nesses anos foi eu mesma. Lidar com os próprios defeitos e vaidades não é fácil. Ser derrotado por si mesmo é uma das piores coisas que pode acontecer com quem luta, luta muito, mas se cansa. Mas aí, quando eu finalmente admiti para mim mesma que tinha feito tudo que estava a meu alcance, quando admiti que tinha treinado duro o ano inteiro e já não tinha o que fazer, quando me conformei de que não havia mais nada que pudesse ser feito e, portanto, minha consciência estava limpa, foi quando adquiri a humildade e serenidade necessárias para manter a mente tranquila e o corpo descansado para a prova. Não era admitir derrota antes da hora, não entreguei os pontos à sorte, pelo contrário, confiei em meu trabalho e sabia que se não fosse pra ser, é porque não era pra ser. Mas foi. E cá estou eu, digitando esse texto dentro do laboratório de informática (vulgo Pro-Aluno) da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, popularmente conhecida como Direito USP (ou San Fran, para os mais chegados).

E hoje estou aqui, sentada nessa cadeira, digitando um texto porque, nesse momento, me veio à mente as razões pelas quais estou aqui e o que quero daqui para frente. Agora há pouco li um texto sobre intercâmbio, e pensar em intercâmbio é sentir saudades do que nunca vivi – até então. Engraçado. Agora tenho emprego, chefe, horário. Também tenho que ver aula, estudar. Mas, de verdade, acho que nunca me senti tão livre em toda minha vida. Tenho muitos sonhos que me dão saudade – ainda vou matar toda essa saudade e realizá-los, um a um – , mas ao mesmo tempo sinto que estou seguindo o caminho que eu escolhi. E se necessário for, vou mudar. Mas, onde quero estar daqui alguns anos? Será que terei realizado meus desejos ou terei desistido deles? Será que conseguirei conciliar todas as minhas vontades e planos? Por enquanto não tenho nada muito definido ainda, mas sei que quero viajar muito, viajar pelo mundo, por todos os caminhos possíveis e até inimagináveis. Será que vou conseguir?? O jeito é se jogar sem medo, tendo a certeza que mais pra frente eu descubro algo de bom.

Nem sei porque comecei a escrever esse texto.

Mas, sempre me esqueço de que o que eu sinto não precisa ter razão.

E eu sentia que precisava escrever.