Historinhas e contos

A Porta

Posted on January 14, 2013 by Kiseki

– Fecha a porta.

– Não não, vou deixar aberta pra entrar um ar mesmo.

– Mas tá de noite, olha as horas!

– O ar da noite é mais fresco.

– É perigoso, nunca se sabe se pode vir um bandido! Semana passada parece que a casa da Jô foi assaltada!

– Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.

– Exato, agora pode ser nossa casa, fecha a porta Carlos!

– Não vou fechar não, se você quiser fechar, feche-a você. Arre, quanto medinho por nada. Fica vendo Datena de tarde, dá nisso.

– Nisso o que?

– Nesse medo louco que você tem de tudo, até de uma porta aberta pra entrar um ar.

– Aberta pra entrarem na nossa casa, é isso que você quer dizer né. Se quer que entre ar, abra as janelas, uai!

– Não é a mesma coisa. Só uma porta aberta tem as sensações de frescor e liberdade tão difíceis de encontrar nesse calorzão dos infernos.

– Mas Carlos, querido, se quer vento abre a porta do quintal, abre as janelas, liga os ventiladores… Mas não deixe a porta assim, escancarada, de noite!

– Você tem medo do que, Daniela?

– Medo do que todo mundo tem, de morrer.

– Acha que uma porta aberta de noite vai te matar?

– Não, mas pode ajudar, facilitar. Nunca se sabe, vira um convite pra bandidos, gente mal intencionada. Se sabem que a casa é cheia das rapariga, vai que surge até um safado sem vergonha que tente se aproveitar das meninas! E você é louco, com essas lorotas de frescor e liberdade. Pra que tanta frescura? E essa bobagem de liberdade? Santo Deus! Livre você não vai é ser na mão de delinquentes!

– Dani… Mas é que… perdemos tanto de nossas vidas por causa desses medos bobos. Quero dizer…  É claro que existem riscos. Mas eles estão soltos por aí, espreitando as vítimas do acaso. Ninguém está sempre seguro, e nessa de querer preservar tanto a vida, perdemos ela em detalhes. É a feijoada da Tia Maroca cheia de gordura, vai que aumenta meu colesterol e me mata do coração? É o cigarro não fumado, vai que dá câncer, não é mesmo? A cerveja não bebida, o doce não saboreado, a paixão não vivida. Quantos momentos bons perdemos para evitar suas consequências, seus riscos!

– Você deu agora de fumar, safado? Se a gente tá junto é porque eu não esperava ter segredos com você, se tiver que falar alguma coisa fale de uma vez, não fique dando voltas e voltas pra me enrolar! Desde quando você fuma? Quem te colocou nessa roubada? Certeza que foi o Vitinho, CER-TE-ZA! Tinha que ser aquele safado, bêbado e arrogante!

– Não não Dani! Que fumar o que! Eu não fumo, foi um exemplo! É um prazer que não faço questão de ter, acho fedido, sei lá! E o Vitor não tem nada a ver com isso, porque você vem com essas agora? Me deixe terminar!

– O que é, então?

– É que eu acho que temos, as pessoas todas, medos demais e vida de menos. Não to falando em ter uma vida libertina, mas o equilíbrio é fundamental. Depois de ficar preso horas no trânsito, no calor dos infernos, eu quero sentir a brisa vinda da porta. Por que não posso ter esse prazer, tão simples? Enquanto você fica aí, assistindo Cidade Alerta, Datena e outros lixos da vida, alimentando medos e mais medos, por que não se aconchega aqui comigo, abraçadinha, sentindo o frescor da brisa? Eu pego uma cervejinha pra gente, frito uns pasteizinhos de carne seca com catupiry que sei que você adora. Tenho certeza absoluta, você vai gostar Dani. Desligue isso aí e vem pra cá, amor. Vamos viver de verdade, pelo menos um pouquinho!

– Arre Carlos, você tem é problema. Durma na sala então. Pegue suas coisas e fique à vontade aí, com sua `brisa` ou seja lá o que for. Vou trancar essa porta. Assim, se entrar algum maníaco, só pega você. E feche as cortinas pras vizinhas fofoqueiras não ficarem comentando que te coloquei na sala, podem espalhar fofoca de que estamos nos separando e não quero conversinhas pra cima de mim depois.

– Dani…!

– Sem conversinha pra cima de mim também. Boa noite!

– Boa noite, amor…

Daniela trancada. E Carlos, de portas abertas.

Ressecados

Posted on September 19, 2012 by Kiseki

O ar estava tão seco, tão seco, que ressecava até mesmo os olhos dos passantes. Da passarela carros eram vistos, fumaças dissipavam-se na imensidão do azul sem nuvens cerceado por grandes edifícios da cidade grande. E lá estavam os dois, debruçados sobre o parapeito, olhando a 23 de Maio congestionada. Uns milhares de pedaços de gente enlatados em automóveis, alguns com a vantagem do alívio do inferno pelo ar-condicionado, outros com janelas abertas na tentativa de recuperar um pouco de brisa, ar para não sufocar nem derreter.

Fluxo interminável de carros, fluxo interminável de passantes pela passarela da Liberdade. Liberdade. Não é ela que todos desejam? Alguns cruzavam-na por baixo, outros acima. Alguns enlatados, outros mais soltos. Todos angustiados. Horários. Preocupações. Dívidas. Família. Sustento. Cobrança. Mas, naquele momento, nada disso importava para os dois amigos. Conversavam horas a fio observando o cotidiano da cidade, a paisagem concreta da Paulicéia, as feições dos mil tipos de brasileiros em uma só cidade.

Conversaram muito, riram muito. Sem preocupações – essa era a regra. Pensavam: viver vale a pena? Simplesmente não há vida se não valer a pena; há apenas existência, e existir é fácil: não requer esforço, sofrimento, cansaço, decepções. Existência é aquele vazio morno, nem lá nem cá, aquela parada no tempo para nada, cotidiano maquinal, aperto no peito. Tem gente que apenas existe e nem sabe. Tem gente que quer viver e não sabe como, porque também quer ser livre e feliz. E tudo isso, junto e misturado, parece uma contradição enorme…

Viver, ser livre, felicidade?  Nada mais são do que tranquilidade, confiança, paz – que estão escondidinhas, mas não perdidas. Requer algum esforço encontrar, mas estão lá dentro da gente, do melhor que podemos – e desejamos – ser. Riam tanto! Sentiam paz. Estavam tranquilos. Transbordavam confiança. Tão pouco precisamos, e tão pouco óbvio é perceber isso… Mas isso eles sabiam, só de olhar os carros. Que tipo de vida queremos viver?

Expectativa

Posted on February 26, 2012 by Kiseki

Ele a esperava no ponto de ônibus, chovia muito. Céu cinza, vento gelado, mãos dentro da jaqueta. Esperou. Esperou… Olhou o relógio, 16:45. Era só uma questão de tempo, já havia esperado tanto antes. Mas esses minutos breves eram eternos dentro dele.

Sentiu uma gota gelada sobre os cabelos. Já estava ficando impaciente, queria tanto vê-la. Quando chegasse, o que iria dizer? Oi, e aí, como cê tá? Não.. iria abraçá-la primeiro. Não, não! Iria dar um beijo na testa, demonstrar ternura… e aí tentaria dar as mãos… mas, e se ela não quisesse?  Hum… verdade, talvez fosse cedo demais, melhor ficar só no cumprimento tradicional e desapegado.

Sentiu seu corpo tremer. Talvez fosse melhor ir embora… não era coisa pra ele, não senhor. Ficou tanto tempo distante, talvez o reencontro de nada adiantaria. Provavelmente ela o odiava. Além disso, ele não queria se apegar. Ficou tanto tempo longe, sentiu saudades…  Olhou a fotografia dela na carteira, beijou a foto. Chega logo! Tanto tempo..

Por que fugi todo esse tempo? Foi rebeldia sim, desnecessária. Mentira! Fugi porque precisava. Precisava do meu tempo, do meu canto, das minhas experiências. Sempre gostei de colo, carinho, claro que queria que estivesse comigo, seria mais fácil… mas não seria completo. Eu não estaria completo. Mas se rebelar assim… ter feito sofrer quem me amava e quem eu amo, não é certo também.. não sei..

Olhou o relógio novamente, 17:05. Nada… Será que ela precisa de mim? Não, ela sabe se cuidar sozinha! Me ensinou tudo o que sei. É tão corajosa. Como será que deve estar seu corpo? Da última vez que a tinha visto os braços estavam finos, cabelo muito negro e a pele morena, linda. Lembrava da voz, das canções. O cafuné, o colo, as conversas.

A chuva parava. O céu continuava cinza. Vários carros passavam na via. Já pensava em desistir.
Olhou o próprio reflexo numa poça de água no asfalto. Tinha mudado muito por dentro, mas não muito por fora. Talvez um pouco menos de cabelo e a barba por fazer fossem as únicas diferenças notáveis.

Nesse instante pára um ônibus, várias pessoas começam a descer. Um casal de homens, um senhor e sua esposa, amigas, trabalhadores.. e ela! Ela! Caramba… continua linda! Coração a mil, queria pedir desculpas, queria abraçar, mas não sabia como!
Abobalhado, chegou perto com um certo receio, temendo alguma repreensão, palavras feias, desafeto.

Com a boca entreaberta, suspirou. Estendeu a mão para ajudar com as malas.
O silêncio era insuportável. O silêncio de estar cara a cara e ninguém dizer nada. Ele tinha que dar o primeiro passo, por que foi ele que resolveu sair de casa, foi ele que bateu a porta por último, foi ele.

– E aí… como você tá, mãe?

Aproximou-se e beijou a testa dela, com muita ternura.

Mon homme en essayant de penser
Julho 7, 2010

Eu sonho sentimentos de falta… por um lado insegurança, e por outro muitos muitos desejos. Ah se pudesse ter tudo o que queria! Pena que ela não pensa igual a mim. Ela gosta de me fazer sofrer, de me prostrar frente a sua imagem, de me seduzir e fazer acreditar, ou imaginar apenas, que é impossível. Ah sim, ela..! Ela que seduz, amaldiçoa! Maldita, maldita!…

Mantenha-me aceso na sua memória e, talvez assim, num futuro distante, eu possa voltar a ser um garoto mais crescido, e não um homem infantil. … Mas como sou idiota! Ela não tem memória. Coisas não tem memória, não tem afeto, não tem nada. Talvez tenha um desafio impregnado na existência, mas não sentimentos. Babaca!

Sentei na cama, olhando fixamente sua imagem. Olhando não, imaginando. Essa coisa não se olha, posto que é sonho, mas se imagina,  acessível.

Cocei a cabeça e pus o óculos na tentativa de enxergar melhor não apenas imagens, mas a vida… sabe como é, nossa visão de mundo nos cria. No maior e melhor sentido amplamente possível.. Não estou enrolando, sei bem o que digo! Veja bem, o que você é capaz de enxergar fisicamente influencia sua decisões e pensamentos. Achas que o que falo é mentira? Bom, conteste se quiser, mas fatos são fatos.

É por isso que idéias são como mulheres. No inicio agente não da valor, não vê interesse… mas quando vai crescendo, se fazendo mulher (no sentindo mais sexual possível, para as mulheres de carne e osso) passamos a ter um gostinho a mais, uma olhadinha aqui, um pensamento desenvolvido ali… e voilà! Se o desejo for maior do que a inércia, tentamos conquistá-la. Idéias são assim também… Desenvolvem, crescem, nos fazem desejar e ir atrás. Mas diferente das mulheres, não são tão palpáveis…. droga!

Melhor voltar a me concentrar em… ahh… deixa pra la! Melhor é nada!

Delirio
Janeiro 6, 2009

Puff. De repente um estalo. Milhares de ideias compulsivas dominam-me a mente. Pensamentos rápidos, vagos. Ideias loucas, insanas comem meu cérebro, que pude sentir esquentar. E da cabeça todo esse calor disseminou-se ate o ultimo de meus dedos dos pés. Mas que viajem! Vontade louca e animal!
Queria perder o controle, sair a noite na rua destinando o infinito e, se possível, congelar o tempo. Não precisava de horas, dia ou qualquer derivado. Eu precisava era do momento noturno, oportuno e arisco. Não preocupava-me as saudades, já as havia sepultado. O momento era todo meu desejo…
Contudo continuei, estagnada. Tanto calor degenerou-me, perdi a noção e a direção… Era uma droga boa, uma moleza e flexibilidade lógica de dar inveja a qualquer mero mortal, tamanha a criatividade fermentada…
O que devia ser feito? Escrever? Deixar enfim o cansaço abater-me e desmaiar por entre o edredom?… Delírio.

Io volero non avversare…
Dezembro 28, 2008
A jovem sentou na calçada, e ficou a observar o movimento na rua. Muita pessoas e confusão… ela não conseguia ler a mente de todos, mas também pouco fazia questão disso.
O que mais lhe intrigava era conseguir ler e se possivelmente entender, não a mente, mas o sentimento da cada individuo ali presente. Por que ódio e amor andam sempre de mãos dadas? Por que a esperança e o vazio brincam continuamente? Por que as idéias possuem as mãos atadas por valores? E por que a maioria das pessoas não dão razão ao que sentem?
Talvez fosse necessário o tempo para envelhecer-lhe com experiências: viver ultrapassa qualquer entendimento – Clarice Lispector já sabia. Mas a garota não queria o tempo… queria o presente, o agora. Queria instantaneamente todas as respostas… Porem ela já sabia, isso era impossível, ela não teria. Não porque as respostas fossem impossíveis, mas a sinceridade para sua existência era. As pessoas costumam mentir, talvez por defesa, talvez por falta de amor. Mentem para os outros, mentem para si…
Pensou por um instante que talvez todo seu ódio e confusão, toda sua busca, fossem apenas mentiras. Nada mais fazia sentido, nada mais tinha valor.


Beep.

Dezembro 14, 2008
Cai a noite. Ascendem-se as luzes nos apartamentos. Esta tudo tão quieto… tão vazio. Olha pela janela procurando encontrar alguma distração para seus olhinhos miúdos quando ouve um barulho agudo e curto. Recebeu uma mensagem em seu celular. Deveria ela ler no instante ou não? Sua curiosidade foi maior…
A surpresa foi boa. A curiosidade valeu a pena, e os riscos vividos também. Sentia-se idiota e envergonhada de si momentos antes do ruído do celular desperta-lhe a atenção. Mas refletindo apos a breve leitura percebeu que talvez os mesmos motivos pelo quais ela tinha vergonha foram os que transformaram seu futuro em presente. E um presente digno de seu homônimo… Agora, com ele em mãos, bastava-lhe desfazer os nos e abrir a caixinha de supresas… Here she goes…

Eco
Novembro 12, 2008 por kisekii

Há um sentimento vazio tentando sair pela janela. Sem saber o que fazer, o que ser, como… é loucura, devaneio, hormônios quem sabe. Muita confusão, o quarto está escuro demais: não exerga a saída. Talvez fique lá para sempre, talvez morra ali mesmo. Não sei.

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