Ressecados

O ar estava tão seco, tão seco, que ressecava até mesmo os olhos dos passantes. Da passarela carros eram vistos, fumaças dissipavam-se na imensidão do azul sem nuvens cerceado por grandes edifícios da cidade grande. E lá estavam os dois, debruçados sobre o parapeito, olhando a 23 de Maio congestionada. Uns milhares de pedaços de gente enlatados em automóveis, alguns com a vantagem do alívio do inferno pelo ar-condicionado, outros com janelas abertas na tentativa de recuperar um pouco de brisa, ar para não sufocar nem derreter.

Fluxo interminável de carros, fluxo interminável de passantes pela passarela da Liberdade. Liberdade. Não é ela que todos desejam? Alguns cruzavam-na por baixo, outros acima. Alguns enlatados, outros mais soltos. Todos angustiados. Horários. Preocupações. Dívidas. Família. Sustento. Cobrança. Mas, naquele momento, nada disso importava para os dois amigos. Conversavam horas a fio observando o cotidiano da cidade, a paisagem concreta da Paulicéia, as feições dos mil tipos de brasileiros em uma só cidade.

Conversaram muito, riram muito. Sem preocupações – essa era a regra. Pensavam: viver vale a pena? Simplesmente não há vida se não valer a pena; há apenas existência, e existir é fácil: não requer esforço, sofrimento, cansaço, decepções. Existência é aquele vazio morno, nem lá nem cá, aquela parada no tempo para nada, cotidiano maquinal, aperto no peito. Tem gente que apenas existe e nem sabe. Tem gente que quer viver e não sabe como, porque também quer ser livre e feliz. E tudo isso, junto e misturado, parece uma contradição enorme…

Viver, ser livre, felicidade?  Nada mais são do que tranquilidade, confiança, paz – que estão escondidinhas, mas não perdidas. Requer algum esforço encontrar, mas estão lá dentro da gente, do melhor que podemos – e desejamos – ser. Riam tanto! Sentiam paz. Estavam tranquilos. Transbordavam confiança. Tão pouco precisamos, e tão pouco óbvio é perceber isso… Mas isso eles sabiam, só de olhar os carros. Que tipo de vida queremos viver?

One comment

  1. Marcus Vinicius says:

    O dilema do viver e existir atinge todas as classes. Mesmo aquela pessoa que ganha muito dinheiro, no fim acaba presa naquilo para ostentar e esquece do que é viver.

    No fim, viver é se sentir bem consigo mesmo. =)

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