Sensações e belas-artes

Ontem, à caminho do trabalho, passei em frente ao antigo Cinema Belas Artes. Quando olho para ele, dá um aperto no coração. As paredes vermelhas de outrora, agora tornaram-se painéis para pichações, rabiscos, colagens. A tinta está descascada. Moradores de rua se abrigam em baixo dele. A parede de vidro, que permitia a visão do interior, tem a transparência ocultada por papéis colados.

É engraçado e doloroso pensar que, não faz tanto tempo assim, estive lá dentro, comi da sua pipoca e assisti a um ‘noitão’. Era um local de fácil acesso pelo metrô e o seu diferencial eram os filmes de vários países, nenhum deles blockbuster. Era um cinema-arte. Me emocionei muito com os filmes que lá vi, pena que não lembro do nome de quase nenhum deles. Lembro que o ‘noitão’ do qual participei tinha como tema o feminismo e, por essa razão, os filmes retratavam a realidade de diferentes mulheres em diferentes contextos.

 Um dos três filmes era francês e narrava a vida de uma mulher, esposa fiel, que passa a ter encontros amorosos com o jardineiro. A sexualidade e o prazer feminino eram discutidos através da traição da esposa infeliz. O segundo filme quase nada lembro, mas retratava a vida de uma esposa, mãe e filha super dedicada à família, mostrando seu dia a dia e seus conflitos pessoais, em especial o jeito de lidar com o pai idoso.

E o terceiro filme, que infelizmente eu também não lembro o nome (memóriazinha boa viu!) era sobre uma mulher, já adulta e de classe social humilde, que acabara de ingressar em uma das melhores universidades do país. Seu desejo era se tornar professora e, se consigo me recordar bem, ela conversava com um professor seu através de cartas, nas quais comentavam sobre obras literárias e a vida.

 Foi o último filme da noite e eu estava cansada, mas lembro de ter a atenção prendida em uma cena na qual a moça, contando para a família sobre seu ingresso na universidade, foi repreendida pela família e inclusive pelo marido. Porque lugar de mulher de família não era na universidade, conhecendo gente e discutindo política, ciência, artes. Mulher boa era a boa esposa, agradável, prestativa, multitarefa. E, durante o jantar com a família, seus parentes questionaram quando seria mãe, porque estava demorando tanto de engravidar. Quando chegou em casa com o marido, ele descobriu que ela estava usando pílula anticoncepcional escondido dele e discutiram muito. Então, ela escolheu deixar o marido e continuar a estudar, sem filhos.

 Acho que de todos os filmes foi o que mais se aprofundou na temática do emprego e da pressão familiar para cumprir o ‘papel’ biológico que a sociedade espera que tenhamos. Ser mãe é algo maravilhoso e, de uns tempos para cá, depois de ver algumas conhecidas engravidando e tendo seus bebês, tenho pensado muito sobre quão mágico é gerar um outro ser humano, e ter ele como parte sua durante tão curto espaço de tempo. Mas, embora a gravidez seja tão bela e um momento tão importante na vida de qualquer mulher, é muito difícil curtir toda essa magia quando se está preocupada em crescer profissionalmente. Uma coisa não anula a outra, mas planejamento é essencial e, por isso, a gravidez tem perdido espaço para o trabalho.

 Depois que o Belas Artes fechou, nunca mais fui atrás do cinema-arte. Sequer baixei filmes. Nunca mais tive a atenção despertada e o coração tocado por imagens e sons. Confesso que também não fui atrás. O cinema-arte pede a mente limpa e o coração aberto, e ultimamente também estive fechada para essas experiências. É algo esquisito e não sei se só eu sou assim, mas realmente me emociono com o que vejo e é muito fácil demonstrar desgosto, irritação, medo, alegria e até mesmo chorar ao ver um filme. E sem o belas-artes, parece que não tenho mais as companhias silenciosas que me acompanhavam nessa experiência doida de sensações. Fiquei solitária.

Bom, depois de toda essa revolta de sensações e memórias, vou tentar voltar a dedicar dinheiro, noites e companhias com o cinema-arte e seus filmes sinestésicos. Ainda não sei qual, mas estou na busca.

 

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