O meu Amor, tem um jeito que é só seu.

ARTE DE AMAR

“Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.”

Manuel Bandeira

*

Quando ainda me sentava nas carteiras do Ensino Médio eu apreciava as aulas de literatura. Apreciava em especial a maneira como os escritores e poetas descreviam seus sentimentos, principalmente o amor. Cada escola literária tinha seu quase-padrão (porque na realidade eles nunca existem) tipos de amor. Amor romântico, amor utópico, amor sensual… Na passagem do tempo, alguns amores foram construídos com olhares e mãos dadas. Outros arderam com beijos e noites inesquecíveis. Alguns foram construídos em nuvens, sonhos apenas… alguns nasceram de amizades, outros sempre estiveram escritos…

Qual é o amor dos tempos de hoje? Já ouvi especulações sobre ele ser líquido, amor-consumo. Amor sexo-delícia-delivery. Beijos deliciosos, orgasmos alucinantes, só por uma noite. Um cardápio variado e infinito de amores, tão infinito quanto o desejo de consumi-lo parece ser. Já ouvi críticas a respeito desse amor-moderno, ouvi dizer que ele é feito de relações fracas, não perdura no tempo.

Não sou a pessoa mais romântica do mundo, manifestações públicas de afeto me causam pavor e comédias românticas não entram na minha lista de filmes preferidos mas, apesar dessa aparente frieza, por dentro sou uma paçoca derretida. Sexo-delícia-delivery não me interessa. Nasci na geração líquida e, por óbvio, fugir dessa realidade é difícil. Mas essa realidade não me satisfaz. O amor aquém de qualquer explicação é que faz parte de mim, e hoje talvez só os livros de literatura consigam traduzir um pouco do que eu vibro.

Eu acredito no amor doação sem anulação. Acredito no amor-companheirismo de cobertor e brigadeiro em noites frias, mas também no amor-pensamento ao deitar a cabeça na escrivaninha, tentativa de descansar do cotidiano. Acredito no amor que aquece a alma quando vê o sorriso da pessoa amada. Acredito no amor que sobrevive à distância, às brigas, à falta de contato. Amor que sobrevive à própria vida, mantendo-se vivo com lembranças e sonhos.

Eu acredito no amor-contradição, mistura de tristeza e doçura. Acredito no amor querer-bem, ainda que a contra-gosto, ainda que isso custe distâncias. Acredito no amor que nem sempre pode estar junto, e também no amor que nem sempre se entende.

Amar é um exercício pessoal, íntimo. Meu amor é do tamanho do mundo, ou maior. Amar não exige explicação, não exige contrapartida, não exige nada. Amor não se anula, não traz infelicidade – embora às vezes possa ser acompanhado da tristeza. O meu amor não exige que o outro seja algo que não é. O meu amor tem momentos tristes, ele entende que nem sempre é bom ficar junto – pode ser que o junto destrua os dois lados.

Eu acredito no amor-liberdade. Só os livres amam de verdade, ainda que por vezes doa. E muito.

E é por isso que Manuel Bandeira tinha razão quando escreveu ‘Arte de Amar’. A alma só encontra satisfação em Deus, o Deus de cada um: a tentativa solitária de tentar entender o propósito de viver e as possíveis razões para os fatos inexplicáveis da vida. O meu Amor só encontra conforto em algo que não entendo, algo que chamo de Deus porque me dá forças, não sei de onde e nem por qual propósito, para seguir e tentar ser alguém melhor, com um coração bom, capaz de ser feliz com a felicidade de outras pessoas. Sem inveja, sem ciúmes, sem ressentimentos. É muito difícil, ainda procuro entender meu Amor.

Mas meu Amor é tão difícil, tão complexo para mim, que por isso mesmo ele não é capaz de se comunicar com outra alma. Ele faz parte da minha alma, e os corpos se entendem, mas as almas não.

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