O Brasil dos últimos tempos

Já faz um pouco mais de um mês que manifestações ganharam força no país. Essa ‘onda’ de protestos começou miúda e muito criticada pela maior parte da população, que enxergava os manifestantes como ‘baderneiros’, ‘filhinhos de papai’, ‘sem noção’. Essa imagem foi desfeita após o fatídico dia 13 de junho.

Foi no 13 de junho que a história ganhou direção nova. Diante das agressões sem causa de policiais despreparados e alguns, quiçá, maldosos ( cheguei a essa conclusão depois disso e disso), que resultaram em agressões feitas a vários repórteres e denúncias de exagero e de violência da PM feitas por milhares de pessoas através das redes sociais, os protestos deixaram de ser por apenas ’20 centavos’ e ganharam uma dimensão gigante, energia pulsante com um toque de patriotismo cego.

Foi depois do 13 de junho que milhares de brasileir@s foram às ruas, reivindicando tudo e nada ao mesmo tempo. Numa mesma multidão encontrava-se cartazes pedindo pela ‘redução da maioridade penal’ enquanto, ao lado, outros pediam pela ‘humanização do cárcere e desmilitarização da polícia’. Como pode, Deus? Essa é apenas uma das mil contradições que observei quando participei da manifestação do dia 17, segunda feira. Mas essas contradições se mantiveram em quase todos protestos seguintes.

‘Mais educação! Mais saúde! Menos corrupção!’ No geral é isso que todos queremos. E depois da invasão ao prédio do Congresso ocorrida também na segunda, ficou claro que a exigência das ruas era séria. O parlamentares, então, fizeram uma ‘agenda positiva’ para tentar ‘parir’ em alguns dias alguns dos projetos que deveriam ter sido decididos há anos. Foi assim com os royalties do pré-sal e também com a PEC33. Incrivelmente parecia que as coisas começaram a se encaminhar. A presidente criou também uma agenda de ‘políticas’ de urgência que deveriam ser discutidas, avaliadas e, então, postas em prática. Ficou claro que o Wellfare State brasileiro estava sendo cobrado. O povo quer seus direitos, agora!

Interessante foi que meses antes eu tive que ler vários textos sobre o Estado de Bem-Estar Social e a o Princípio da Proibição do Retrocesso ou Cláusula da Proibição do Retrocesso, segundo o qual o direito não poderia retroceder nunca, somente avançar. E isso inclui os direitos sociais, conhecidos também como ‘direitos do cidadão de obter uma prestação positiva do Estado’. Simplificando: o Estado só pode oferecer mais e mais direitos sociais, jamais retroceder e cortá-los. Pois, caso o fizesse, ocorreria o que estamos vendo ocorrer na prática.

Mais interessante também é notar que, no caso brasileiro em questão, não houve retrocesso em direitos sociais como ocorreu na França e outros países europeus, que tiveram de lidar com cortes para superar a crise de 2008. Também não é um movimento contra governos ditatoriais, como ocorreu na Primavera Árabe e acarretou na queda de vários governos (entre eles, o que mais me marca a memória é o do ditador líbio Muammar Kadhafi, cujas fotos morto circularam pela internet).

O caso brasileiro é um tanto… diferente. Saímos às ruas para exigir mais direitos e mais qualidade deles. Vivemos uma democracia há pouco mais de 20 anos, e é uma democracia bebê ainda. Estamos aprendendo. Nossas organizações políticas não são das melhores, nem das mais transparentes. Mas estamos no caminho… reivindicar faz parte disto. Mas.. será que estamos fazendo certo?

Ficou claro que o ‘jogo’ só virou a favor dos manifestantes depois que repórteres foram agredidos por policiais naquela noite de quinta. Não há lideranças vivas nos movimentos. Não há pautas claramente definidas. Partidos políticos foram hostilizados em vários dos protestos. Será que sabemos o que queremos e para onde caminhamos? Onde está nossa memória recente dos tempos de ditadura, no qual os partidos eram proibidos, lideranças eram perseguidas? E as semelhanças do movimento de massa, antipartido e super nacionalista com o nazismo?  Será que o povo brasileiro realmente ‘acordou’ ou virou moda sair nas ruas para depois postar uma foto com amigos nos protestos?

O que tenho visto é uma preocupação grande dos governos em atender as demandas populares. A presidente tem feito um esforço em definir as políticas públicas, repensar o papel dos serviços públicos. Não sei se é o ideal. Mas está tentando. E, em contrapartida, não vejo maior esclarecimento da população sobre como, de fato, ser possível executar o que se pede. E é aí que entra o Princípio da Proibição do Retrocesso. Será que nosso governo tem realmente condições de arcar com 100% dos transportes, da saúde, da educação e de diversos outros segmentos sociais?

Existe o lucro dos patrões, a exploração da mão de obra. Mas também existem os empregados desinteressados, o trabalhador que faz trambique. Não existe maniqueísmo nas relações humanas. Há pessoas e pessoas, sistemas e sistemas, vários meios de se tentar obter maior qualidade de vida com o mínimo de sofrimento possível.

Estamos tod@s cansados do trânsito, dos atendimentos ruins (tanto do setor público como do privado), da precariedade dos serviços (os dois tipos também). Será que só cobrar o governo resolve? Será que apoiar essa ‘luta de classes’ entidades privadas diabólicas x trabalhador oprimido é o suficiente, é o necessário, é o que de fato promoverá mudanças?

Não sei. O que sei é que não adianta acusar, apontar o dedo para arrumar um culpados por todos os problemas do mundo e das outras galáxias. O inferno sempre será os outros. Talvez, antes de levantar a bunda pra ir pra rua levantar cartazes e dizer que ‘O Brasil acordou’, tenha mais efeito repensar os próprios comportamentos e medidas melhores que tornem melhor a vida de tod@s, sem maniqueísmos pseudocientíficos.

Talvez eu tenha perdido um pouco a ilusão de viver num mundo 100 por cento igual, pleno equilíbrio entre tecnologia, conforto e meio-ambiente, sem opressão social, sem sexismo, sem racismo, sem homofobia, sem gente passando fome… sem todos os exageros ruins enquanto poucos consomem direitos e dinheiro sem se preocupar com o amanhã.

Mas, se acredito em algo, acredito que podemos mudar para melhor. Talvez não eliminar completamente as diferenças (até porque nem biologicamente somos iguais, não existe igualdade inteira..), mas sim criar uma igualdade com respeito a essas diferenças, uma igualdade que possibilite a todos uma existência digna e um futuro seguro, saudável.

Pensar em uma solução plausível tem mais efeito do que vaiar a presidente. Desejamos para ontem, nos planejamos para o futuro. Mas e o agora?

*

Ontem (10 de julho) a presidente foi vaiada após anunciar repasse de bilhões para os municípios. (Veja aqui!) O futuro não é feito ontem. Não sei ainda como avaliar o progresso dessas medidas, afinal dependerá também de esforços das administrações estaduais e municipais. Mas precisava vaiar? Num primeiro ponto de vista me pareceu revolta de criança mimada que não sabe o que tá falando, o que tá pedindo. 

Amanhã está marcada a Greve Geral dos Sindicatos e de outras associações de trabalhadores. O isso que vai dar?

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