Tempo, tempo, tempo, tempo…

Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo…

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo…

*

Semana passada esteve em evidência na mídia o caso de três garotas mantidas em cativeiro, por dez anos, que conseguiram se libertar depois que uma delas se arriscou a pedir socorro aos vizinhos enquanto o algoz não estava em casa. Esse fato bizarro e assustador gera vários questionamentos. Como ficaram tanto tempo presas sem ninguém desconfiar? Como o agressor/estuprador/sequestrador convivia naturalmente com os vizinhos, sem criar suspeitas? Essas dúvidas são comuns, mas não são elas que me despertaram incômodo.

O que me cutucou depois dessas notícias foi pensar como essas garotas iriam reconstruir a própria vida. Além da liberdade e da dignidade que lhes foi retirada durante todo esse tempo – DEZ anos! – , também outra ‘coisa’ muito valiosa e que, geralmente, não recebe tanta atenção, lhes foi roubada: o tempo. Tempo. A época do colégio, o início da vida universitária ou do futuro profissional. Todas as tecnologias que evoluíram no período – imaginem, elas nunca viram um Iphone, Ipad e outros tantos ‘ais’, provavelmente nem sequer conheçam as ‘redes sociais’. Não viram também as eleições do Obama (as duas!), nem a Crise da Bolha Imobiliária de 2008. Talvez tenham até ouvido falar (soube que uma delas sabia da repercussão de seu desaparecimento na mídia), mas não puderam discutir, ‘sentir’ esses fatos.

Serão capazes de reconstruir a vida? Eliminar o passado? Esquecer as humilhações? As torturas? O medo? A tristeza?

Não sei vocês, mas eu sou uma pessoa muito, muito emotiva. Às vezes é difícil segurar o choro ainda que eu saiba, racionalmente, que ele não é necessário. Infelizmente, soma-se à minha emotividade o meu rancor acumulado. Sou uma pessoa bem rancorosa – pelo menos bem mais do que gostaria de ser. É difícil esquecer o que me magoa, quem me magoa. Mas, mágoas são mágoas. Quem nunca levou uma bofetada nas expectativas? Quem nunca se sentiu traído, enganado, abandonado, largado ao relento (exatamente nesses ‘extremos’) por amigos, familiares, namorad@? Quem nunca perdeu (ou perderá) para sempre aquela pessoa especial da família? Quem nunca se sentiu ‘marcado’ por alguma tristeza ou trauma?

Creio que todos já sentimos algo assim. Alguns mais, uns menos. Alguns com mais impacto, outros com menos. Mas eu garanto a vocês: por mais ou menos mágoas que tenhamos, nunca esquecemos. Essas meninas jamais vão esquecer o que viveram. É como se esses sentimentos do passado estivessem tatuados nas entranhas. E pensar que tais marcas são impossíveis de apagar, talvez soe pessimista, mas… que soe, é a verdade. Verdades doem.

E é assim… A tristeza, no canto, sozinha. Às vezes ela bate na parede, tenta quebrar o vidro e pular para fora da alma na forma de lágrimas. Por vezes consegue. Superar é esquecer? É? Por um tempo eu pensei que fosse. Acreditava fielmente que, com paciência e esforço, conseguiria apagar metade das minhas ‘tatuagens intrínsecas’. Nem 0,0001 consegui. É impossível deletar.

Talvez só o tempo, esse mesmo que foi roubado das meninas, possa ajudar na cura. O tempo não cria esquecimento. O que ele faz é nos ajudar a seguir a vida, é colocar na gaveta essas memórias ruins. Atrás da porta, os sentimentos escuros. Cria espaço e esperança para os sentimentos bons. E é ‘só isso’ que resta. Tempo, tempo, tempo, tempo…

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