Meu deus

Meu deus, faz um ano desde que descobrimos que meu namorado estava com câncer.
Foram doze sessões de quimioterapia, mais vinte de radioterapia. Foram dias de angústia pela saúde dele, foram dias de culpa minha. Foi um ano novo estranho. Foram tantos sentimentos difíceis. Foi o início da terapia (me rendi, me encontrei). Foi a retomada, aos poucos, da confiança. Graças a deus saúde novamente. E, agora, novas perspectivas e um futuro incerto.

Meu deus, eu vou me formar. Aquela agonia toda registrada aqui passou faz cinco anos. Mas ela ainda está aqui, guardadinha. E está dentro de mim, também. Engraçado que a lembrança dos tempos de cursinho ainda me é muito forte. Foi um dos períodos mais estressantes e angustiantes pelos quais já passei, e de lembrança ficou comigo uma ansiedade contra a qual tenho lutado.

Meu deus, meus pais se divorciaram faz uns anos e todo dia ainda é algo novo. Todo dia é uma reconstrução de relacionamento, é uma tentativa de voltar a me sentir bem com eles e suas respectivas famílias.

Meu deus, todo dia é um dia de saudade das coisas que não vivi – e de algumas que vivi também. É uma tentativa de ser inteira em tudo que faço. De materializar meus sonhos.

Meus deus. Às vezes viver é tão doloroso. Às vezes fico retomando pensamentos de momentos que eu gostaria que tivessem parado no tempo. Fico relembrando cheiros, toques. Por quê?

Meus deus, ainda bem que todo dia é dia de cantar. Só assim eu aguento.