Machismo nosso de cada dia

Por esses dias, durante uma inconversa informal com irmão, primo e namorado, meu irmão mostra alguns vídeos e fotos pornográficas que recebeu de amigos pelo whatsapp. Até aí nada de anormal.

Só que as fotos não foram feitas por empresas da ‘indústria pornográfica’, e nem eram ‘brincadeiras’ de mulheres adultas publicadas ou vazadas. As fotos e vídeos se tratavam de garotas um pouco acima dos quinze anos, mas não mais que dezoito.

Perguntei de onde ele tinha recebido aquelas fotos, ele me disse que amigos estavam compartilhando, que eram garotas de um colégio aqui do bairro, inclusive uma delas seria irmã de um colega dele.

Por óbvio as garotas que tiraram as fotos:

1) ou enviaram para alguém que acreditavam ser de confiança, e vazou na internet

2) ou tiveram seus celulares fuçados e fotos vazadas pelo próprio aparelho delas

A primeira impressão que eu, como mulher e jovem, tive ao ver tais imagens foi aversão e repreensão. Que absurdo! Como as meninas tiveram a coragem de fazer uma coisa dessas, e ainda compartilhar? Será que elas não sabiam que poderiam cair nas redes sociais, e o tamanho da repercussão que tal fato geraria? Seria uma mancha que perduraria durante toda a juventude, quiçá respingaria até na vida profissional. Seriam para sempre as meninas que tiraram fotos peladas ou se filmaram em intimidades. Seriam as ‘vadias’.

Dentre todas as coisas que vi, o que mais me chocou foi um vídeo. Era uma garota, de uns 16 anos, transando com dois meninos ao mesmo tempo, com a música da introdução da novela ‘Amor à vida’ da rede Globo ao fundo. No vídeo, um dos meninos filma a garota por trás. Ela vira para ele, pega o celular, vira a câmera do celular para ela e diz: ‘tá filmando né? tem certeza que tá ligado?’

Ora, ela sabia o que estava fazendo. Talvez não tenha noção das consequências, mas que sabia, sabia.

Depois de um tempo me veio à mente porque eu repreendi o comportamento da garota nesse vídeo, e não dos meninos. Estavam todos pelados, todos fazendo sexo, todos menores de idade. E só repreendi a garota. Por que?

Depois é que me toquei do quão imbecil eu estava sendo.

Não estava avessa ao fato de serem adolescentes. Sou da geração na qual adolescentes têm relações sexuais, quer os pais queiram ou não, é um fato. Então, de certa forma, isso não é novidade alguma pra mim. Só que fiquei avessa ao fato das garotas terem se ‘exposto tanto’.

E é aí que me peguei sendo machista. E é aí que há um dos maiores dilemas do feminismo.

Uma mulher que se expõe de tal forma, é para se satisfazer ou satisfazer os homens? E se ela gostar de satisfazer homens, qual o problema nisso? Ela tem menos ‘autonomia’ sobre o próprio corpo por isso?

Se elas quiseram se expor, qual o problema nisso??

É claro que a sociedade É machista, é claro que ELAS sairiam prejudicadas. Isso é um problema, num primeiro momento. Mas sem a polêmica, tal assunto não é discutido. É preciso mudar a mentalidade das pessoas.

Mas antes de querer mudar os outros, é preciso que eu mude a mim mesma. E não é fácil desapegar de tanto machismo.