Admiração, valores, dúvidas, divagações

“Aprendi desde cedo que fazer higiene mental era não fazer nada por aqueles que despencam no abismo. Se despencou, paciência, a gente olha assim com o rabo do olho e segue em frente. Imaginava uma cratera negra dentro da qual os pecadores mergulhavam sem socorro. Contudo, não conseguia visualizar os corpos lá no fundo e isso me apaziguava. E quem sabe um ou outro podia se salvar no último instante, agarrado a uma pedra, a um arbusto?… Bois e homens podiam ser salvos porque o milagre fazia parte da higiene mental. Bastava merecer esse milagre.”

Lygia Fagundes Telles

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Até os meus treze anos, eu não fazia muita ideia do que gostava. Não que eu tenha exatidão alguma agora, mas bem mais do que antes… Foi na oitava série que eu “descobri” o encanto que as ciências humanas me davam. Até então eu queria estudar medicina, fazer cirurgia plástica, reconstrução de queimados. Era um projeto nobre, mas perdeu espaço dentro de mim.

Sempre fui meio maluca, sem noção. Impulsiva em certas situações, falava demais para gente demais. Não gosto injustiça, nem de gozar da desgraça alheia (apesar disso acontecer com alguma frequência e depois ficar me culpando por isso). Sempre gostei de discutir e perder uma discussão é algo que me incomoda até hoje. Não acho que isso seja algo do que se orgulhar, mas enfim, faz parte do meu jeito. O que interessa é que estar relacionada com o ser humano, com as ideias, com as sensações e o subjetivo sempre me encantou, mas nunca percebi o quanto esse encanto poderia crescer. Foi no ano de 2006 que descobri.

Nesse ano tive aulas com um professor de história que, de algum jeito, mudou minha vida. Aprender sobre Segunda Guerra Mundial, Imperialismo e outros assuntos nunca foi tão interessante, tão intenso. Não pelo assunto em si, mas pela abordagem que o professor conseguia dar em sala de aula. Eu sentia os assuntos, e gostava. Foi dado o gatilho para um amor que se mantém até hoje.

Depois do ensino fundamental, veio o médio e todas suas preocupações. Que curso prestar? Veterinária, medicina, relações internacionais, administração.. milhões de dúvidas normais, e ao final optei por direito. Minha escolha tem uma carga de idealismo muito forte, porque busco através dela me sentir útil a sociedade. Se eu pudesse, como jovem sonhadora, claro que mudaria o mundo. Evitaria sofrimentos, injustiças; poria um fim a pobreza. Mas.. são só sonhos. O mundo sempre foi desigual, e sempre será. Não é pessimismo, é fato. O ser humano é demasiado podre, e só com seu fim teria fim a desgraça do mundo. E será que teria graça?  Mesmo sabendo da realidade, optei por realizar um sonho. Me sentir útil..

Aquele meu professor da oitava série fez parte dessa escolha. Ele não sabe, e talvez nunca venha a saber, o quanto eu passei a admirar seu trabalho e de todos os professores, professores de verdade. Aqueles que tentam, de algum jeito, tornar seus pupilos pessoas melhores, não apenas no aspecto intelectual e conteudista, mas no aspecto humano. E é esse tipo de educação que falta a maioria das pessoas, é algo que se aprende. Como é bonito isso! Uma migalha na imensidão de gente, uma migalha de pouca gente, tenta de alguma forma influenciar positivamente os que estão ao seu redor, ensinando valores. E os professores tem uma grande vantagem, pois a escola é o lugar ideal para esse tipo de ensinamento porque os alunos veem na figura daquele que segura o giz alguém que deve ser ouvido, alguém que tem algo a ensinar.

Podemos aprender valores com quem convivemos através do simples ato de `conviver`, mas muitas vezes essas lições passam despercebidas. Enfim…

Se hoje busco me aperfeiçoar enquanto ser humano, se me preocupo com o outro e com o efeito de minhas ações, devo isso em grande parte aos mestres que fizeram parte da minha trajetória. As ciências humanas, paixão que mantenho, foram um ponto de contato, uma coincidência. Já fui muito ingênua em pensar que elas eram mais `humanas` em relação as demais. Isso não existe. Filosofia e matemática se completam, não se excluem. Uma gera perguntas a outra, e talvez tenhamos nos esquecido disso devido a imensa carga racional que o ensino e a sociedade atual exigem. Por que o céu é azul? Pode até ter uma resposta racional, física, mas sempre surgirá a questão: e por que É assim? , que talvez a filosofia tenha mais sensibilidade em tentar explicar.

Sensibilidade. Gosto. Valores. São alguns exemplos de `coisas` que aprendi com meus mestres. Mestres não no contrato trabalhista, não como profissão registrada; como pessoas. Mestres podem ser amigos, parentes, chefes, professores. Tornam-se mestres sobretudo pela admiração que conseguem criar, esse vínculo de distânciamento que potencializa palavras e ações, tornando-as fortes suficientes para rasgarem nosso interior, redesenhá-lo.

Já estou divagando, mas tudo bem, faz parte… escrevo por necessidade, e necessidades não precisam ter começo, meio e fim..