Amor tussisque non celantur

Ontem ao voltar para casa, enquanto esperava a fila do ônibus andar, havia uma senhora na minha frente. Ela tinha a feição bem terna e calma, apesar de acometida pelos maus tratos do tempo. Ao subir no ônibus, esperando minha vez para passar o bilhete único vejo o marido dela, antes a frente, cedendo espaço e deixando-a entrar e sentar primeiro.

Como sou uma barra de manteiga, não deixei de expressar o quanto admirada fiquei com a cena. Algo tão simples, mas que demonstra respeito e amor de forma tão nítida! Acabei por emitir um ‘ownn que fofo’ bem baixinho, e nisso o motorista responde:

– Da hora ne? Muito da hora.

– É, da hora mesmo. Muito bonito

Passei a catraca e sentei.

É comum pessoas reclamarem de não ter um namorado ou uma namorada. ‘Ter’. Um verbo  possessivo.  Isso é amor?

Prefiro o ‘ser’ amado. Ser amada e amar.  Ser enamorada e enamorar.
‘Ter’, ‘Objetificar’ ? Objetos podem quebrar, envelhecer e tornar-se inúteis. Ser não. O Ser muda sim, mas não muda para tornar-se obsoleto. Muda para ser diferente, atualizar-se e manter-se novo apesar das resistências. Muda para aprofundar-se, para conhecer o outro no seu eu mais intimo e também conhecer a si mesmo de forma profunda. Muda para continuar vivo apesar da idade.

*

“O tempo é muito lento para os que esperam
Muito rápido para os que tem medo
Muito longo para os que lamentam
Muito curto para os que festejam
Mas, para os que amam, o tempo é eterno.”

William Shakespeare