A Porta

– Fecha a porta.

– Não não, vou deixar aberta pra entrar um ar mesmo.

– Mas tá de noite, olha as horas!

– O ar da noite é mais fresco.

– É perigoso, nunca se sabe se pode vir um bandido! Semana passada parece que a casa da Jô foi assaltada!

– Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.

– Exato, agora pode ser nossa casa, fecha a porta Carlos!

– Não vou fechar não, se você quiser fechar, feche-a você. Arre, quanto medinho por nada. Fica vendo Datena de tarde, dá nisso.

– Nisso o que?

– Nesse medo louco que você tem de tudo, até de uma porta aberta pra entrar um ar.

– Aberta pra entrarem na nossa casa, é isso que você quer dizer né. Se quer que entre ar, abra as janelas, uai!

– Não é a mesma coisa. Só uma porta aberta tem as sensações de frescor e liberdade tão difíceis de encontrar nesse calorzão dos infernos.

– Mas Carlos, querido, se quer vento abre a porta do quintal, abre as janelas, liga os ventiladores… Mas não deixe a porta assim, escancarada, de noite!

– Você tem medo do que, Daniela?

– Medo do que todo mundo tem, de morrer.

– Acha que uma porta aberta de noite vai te matar?

– Não, mas pode ajudar, facilitar. Nunca se sabe, vira um convite pra bandidos, gente mal intencionada. Se sabem que a casa é cheia das rapariga, vai que surge até um safado sem vergonha que tente se aproveitar das meninas! E você é louco, com essas lorotas de frescor e liberdade. Pra que tanta frescura? E essa bobagem de liberdade? Santo Deus! Livre você não vai é ser na mão de delinquentes!

– Dani… Mas é que… perdemos tanto de nossas vidas por causa desses medos bobos. Quero dizer…  É claro que existem riscos. Mas eles estão soltos por aí, espreitando as vítimas do acaso. Ninguém está sempre seguro, e nessa de querer preservar tanto a vida, perdemos ela em detalhes. É a feijoada da Tia Maroca cheia de gordura, vai que aumenta meu colesterol e me mata do coração? É o cigarro não fumado, vai que dá câncer, não é mesmo? A cerveja não bebida, o doce não saboreado, a paixão não vivida. Quantos momentos bons perdemos para evitar suas consequências, seus riscos!

– Você deu agora de fumar, safado? Se a gente tá junto é porque eu não esperava ter segredos com você, se tiver que falar alguma coisa fale de uma vez, não fique dando voltas e voltas pra me enrolar! Desde quando você fuma? Quem te colocou nessa roubada? Certeza que foi o Vitinho, CER-TE-ZA! Tinha que ser aquele safado, bêbado e arrogante!

– Não não Dani! Que fumar o que! Eu não fumo, foi um exemplo! É um prazer que não faço questão de ter, acho fedido, sei lá! E o Vitor não tem nada a ver com isso, porque você vem com essas agora? Me deixe terminar!

– O que é, então?

– É que eu acho que temos, as pessoas todas, medos demais e vida de menos. Não to falando em ter uma vida libertina, mas o equilíbrio é fundamental. Depois de ficar preso horas no trânsito, no calor dos infernos, eu quero sentir a brisa vinda da porta. Por que não posso ter esse prazer, tão simples? Enquanto você fica aí, assistindo Cidade Alerta, Datena e outros lixos da vida, alimentando medos e mais medos, por que não se aconchega aqui comigo, abraçadinha, sentindo o frescor da brisa? Eu pego uma cervejinha pra gente, frito uns pasteizinhos de carne seca com catupiry que sei que você adora. Tenho certeza absoluta, você vai gostar Dani. Desligue isso aí e vem pra cá, amor. Vamos viver de verdade, pelo menos um pouquinho!

– Arre Carlos, você tem é problema. Durma na sala então. Pegue suas coisas e fique à vontade aí, com sua `brisa` ou seja lá o que for. Vou trancar essa porta. Assim, se entrar algum maníaco, só pega você. E feche as cortinas pras vizinhas fofoqueiras não ficarem comentando que te coloquei na sala, podem espalhar fofoca de que estamos nos separando e não quero conversinhas pra cima de mim depois.

– Dani…!

– Sem conversinha pra cima de mim também. Boa noite!

– Boa noite, amor…

Daniela trancada. E Carlos, de portas abertas.

Ressecados

O ar estava tão seco, tão seco, que ressecava até mesmo os olhos dos passantes. Da passarela carros eram vistos, fumaças dissipavam-se na imensidão do azul sem nuvens cerceado por grandes edifícios da cidade grande. E lá estavam os dois, debruçados sobre o parapeito, olhando a 23 de Maio congestionada. Uns milhares de pedaços de gente enlatados em automóveis, alguns com a vantagem do alívio do inferno pelo ar-condicionado, outros com janelas abertas na tentativa de recuperar um pouco de brisa, ar para não sufocar nem derreter.

Fluxo interminável de carros, fluxo interminável de passantes pela passarela da Liberdade. Liberdade. Não é ela que todos desejam? Alguns cruzavam-na por baixo, outros acima. Alguns enlatados, outros mais soltos. Todos angustiados. Horários. Preocupações. Dívidas. Família. Sustento. Cobrança. Mas, naquele momento, nada disso importava para os dois amigos. Conversavam horas a fio observando o cotidiano da cidade, a paisagem concreta da Paulicéia, as feições dos mil tipos de brasileiros em uma só cidade.

Conversaram muito, riram muito. Sem preocupações – essa era a regra. Pensavam: viver vale a pena? Simplesmente não há vida se não valer a pena; há apenas existência, e existir é fácil: não requer esforço, sofrimento, cansaço, decepções. Existência é aquele vazio morno, nem lá nem cá, aquela parada no tempo para nada, cotidiano maquinal, aperto no peito. Tem gente que apenas existe e nem sabe. Tem gente que quer viver e não sabe como, porque também quer ser livre e feliz. E tudo isso, junto e misturado, parece uma contradição enorme…

Viver, ser livre, felicidade?  Nada mais são do que tranquilidade, confiança, paz – que estão escondidinhas, mas não perdidas. Requer algum esforço encontrar, mas estão lá dentro da gente, do melhor que podemos – e desejamos – ser. Riam tanto! Sentiam paz. Estavam tranquilos. Transbordavam confiança. Tão pouco precisamos, e tão pouco óbvio é perceber isso… Mas isso eles sabiam, só de olhar os carros. Que tipo de vida queremos viver?

É aí que tá!

“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem..”

“Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”

“Viver — não é? — é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver mesmo.”

 Guimarães Rosa

*

E não é que enlouqueci? Surtei, desandei, desvairei! Ando no meio fio, pulo bueros e corro pro ponto. Depois, ainda consigo me apaixonar, apaixonar, apaixonar por tudo que vejo! Se não é a árvore, cheia de flores, linda? Se não é o raio de sol, por entre as nuvens, divino? Se não são vocês, dentro de mim, amores? Problemão esse ser-apaixonado! Problemão, porque se perde, vive perdido, no labirinto que é não saber o que fazer, e fazer tudo certo e errado ao mesmo tempo… mas é bom, gosta tanto de sonhar!

Todas pessoas tem labirintos, é verdade. Mas o meu é diferente. É cheio de imaginação. E nesse cenário novo, de paredes novas e pinturas desconhecidas, não sei o que fazer, e acabo fazendo tudo errado.

Tudo errado.. do mesmo jeito que fizeram comigo. Errado.

É, brincar de viver em montanha-russa não vai ser fácil… Acorda menina!

Expectativa

 

Esperava no ponto de ônibus, chovia muito. Céu cinza, vento gelado, mãos dentro da jaqueta. Esperou. Esperou… Olhou o relógio, 16:45. Era só uma questão de tempo, já havia esperado tanto antes. Mas esses minutos breves eram eternos dentro dele.

Sentiu uma gota gelada sobre os cabelos. Já estava ficando impaciente, queria tanto vê-la. Quando chegasse, o que iria dizer? Oi, e aí, como cê tá? Não.. iria abraçá-la primeiro. Não, não! Iria dar um beijo na testa, demonstrar ternura… e aí, tentaria dar as mãos… mas, e se ela não quisesse?  Hum… verdade, talvez fosse cedo demais, melhor ficar só no cumprimento tradicional e desapegado.

Sentiu seu corpo tremer. Talvez fosse melhor ir embora… Não era coisa para ele, não senhor. Ficou tanto tempo distante, talvez o reencontro de nada adiantaria. Provavelmente ela o odiava. Além disso, ele não queria se apegar. Ficou tanto tempo longe, sentiu saudades…  Olhou a fotografia dela na carteira, beijou a foto. Chega logo! Tanto tempo..

Por que fugi todo esse tempo? Foi rebeldia sim, desnecessária. Mentira! Fugi porque precisava. Precisava do meu tempo, do meu canto, das minhas experiências. Sempre gostei de colo, carinho, claro que queria que estivesse comigo, seria mais fácil… mas não seria completo. Eu não estaria completo. Mas se rebelar assim? Ter feito sofrer quem me amava e quem amo, não é certo também… Não sei..

Olhou o relógio novamente, 17:05. Nada… Será que precisa de mim? Não, ela sabe se cuidar sozinha! Me ensinou tudo o que sei. É tão corajosa. Quais transformações deve ter sofrido seu corpo? Da última vez os braços estavam finos, cabelo muito negro e a pele morena, linda. Lembrava da voz, das canções. O cafuné, o colo, as conversas.

A chuva parava. O céu permanecia cinza. Vários carros lentos na via. Era hora de desistir?
Olhou o próprio reflexo numa poça de água no asfalto. Tinha mudado muito por dentro, mas não muito por fora. Talvez um pouco menos de cabelo e a barba por fazer fossem as únicas diferenças notáveis.

Pára um ônibus, várias pessoas começam a descer. Um casal de homens, um senhor e sua esposa, amigas, trabalhadores… ela! Ela! Caramba… continua linda! Coração a mil, queria pedir desculpas, queria abraçar, mas não sabia como!
Abobalhado, chegou perto com um certo receio, temendo alguma repreensão, palavras feias, desafeto.

Com a boca entreaberta, suspirou. Estendeu a mão para ajudar com as malas.
O silêncio era insuportável. O silêncio de estar cara a cara e ninguém dizer nada. Ele tinha que dar o primeiro passo, por que foi ele quem resolveu sair de casa, foi ele quem bateu a porta por último, foi ele.

– E aí… como você tá, mãe?

Aproximou-se e beijou a testa dela, com muita ternura.