Meu deus

Meu deus, faz um ano desde que descobrimos que meu namorado estava com câncer.
Foram doze sessões de quimioterapia, mais vinte de radioterapia. Foram dias de angústia pela saúde dele, foram dias de culpa minha. Foi um ano novo estranho. Foram tantos sentimentos difíceis. Foi o início da terapia (me rendi, me encontrei). Foi a retomada, aos poucos, da confiança. Graças a deus saúde novamente. E, agora, novas perspectivas e um futuro incerto.

Meu deus, eu vou me formar. Aquela agonia toda registrada aqui passou faz cinco anos. Mas ela ainda está aqui, guardadinha. E está dentro de mim, também. Engraçado que a lembrança dos tempos de cursinho ainda me é muito forte. Foi um dos períodos mais estressantes e angustiantes pelos quais já passei, e de lembrança ficou comigo uma ansiedade contra a qual tenho lutado.

Meu deus, meus pais se divorciaram faz uns anos e todo dia ainda é algo novo. Todo dia é uma reconstrução de relacionamento, é uma tentativa de voltar a me sentir bem com eles e suas respectivas famílias.

Meu deus, todo dia é um dia de saudade das coisas que não vivi – e de algumas que vivi também. É uma tentativa de ser inteira em tudo que faço. De materializar meus sonhos.

Meus deus. Às vezes viver é tão doloroso. Às vezes fico retomando pensamentos de momentos que eu gostaria que tivessem parado no tempo. Fico relembrando cheiros, toques. Por quê?

Meus deus, ainda bem que todo dia é dia de cantar. Só assim eu aguento.

Perdão existe?

Quem me conhece ou acompanha o blog há algum tempo sabe que nos últimos tempos dois eventos me abalaram muito. O primeiro foi o fim de um namoro de sete anos, o segundo foi o divórcio dos meus pais.

Sem querer entrar na particularidade dos dois casos, o fato é que hoje, mesmo passado relativamente um bom tempo dos dois eventos, ainda não consigo superar com tranquilidade tudo o que aconteceu.

Queria, de verdade, poder não me chatear mais. A vida anda, as coisas mudam, as pessoas mudam, e erram, e muito. Então por que perder tempo com sentimentos ruins, quando se pode guardar e, quem sabe, ainda cultivar só as coisas boas?

Embora tanto meu ex-namorado quanto meu pai tenham feito coisas as quais me magoaram muito, por que perder tempo com isso? Tenho tantas memórias boa, momentos de carinho e diversão. Por que se apegar às coisas ruins, sentir o gosto seco e amarrado da mágoa?

Queria entender como é que faz para perdoar. Faz uns bons anos (sim, anos) que tento praticar o perdão no cotidiano. Acho que já consegui me livrar de uns 70% de mágoas, mas os outros 30% ainda estão lá, me incomodando.

Queria acordar e esquecer todas essas bobagens que fazem a gente perder tempo.

Por que cultivar sentimentos ruins é perder tempo, e vida.

Eu não quero isso pra mim.

Natal de ponta cabeça, cabeça em pé e algum sentimento.

Final de mais um ano e, com ele, as reflexões sobre como aproveitei (ou não) meu tempo, o que deveria ter feito (ou não), se o saldo final foi positivo (ou não). Acontece que 2013 começou com um pedido muito simples, porém essencial: PAZ. Lembro de ter pedido com todas as forças na virada do ano que meu coração fosse capaz de se acalmar, que as mágoas se tornassem pequenas ou, então, sumissem por completo. Pedi para parar de perder o sono e o ar quando pensasse em algumas pessoas, quando pensasse em como era meu relacionamento com elas e em que ele se transformou.

Pedi muita paz, porque meu coração estava magoado, ferido. E não foi apenas a ferida causada por uma decepção familiar ou amorosa mas, além disso, era uma decepção comigo mesma. Eu estava decepcionada por não conseguir perdoar, por manter a raiva, o ódio, o incômodo. Queria parar de sofrer e, se possível, também parar de fazer outros sofrerem.

Se consegui realizar? Acredito que sim. Mas isso só foi possível quando admiti para mim mesma que, quando o assunto é sentimento, a gente tem que seguir o coração. Como já diria um poeta por aí, se perceber que tiver que seguir, siga… Se achar que precisa voltar, volte… E foi exatamente isso que fiz. Deu uma acalmada por dentro, estou mais feliz.

Entretanto, como nem tudo é rosas, esse ano tive que experimentar o primeiro natal após a separação dos meus pais. Aliás, talvez a melhor definição seja a de que a separação ocorreu no natal. E aí me senti naquela corda bamba de circos, sabe? Tentando manter o equilíbrio pra não despencar de um lado e nem do outro, tentando manter os olhos a frente para seguir no fio, caminhar seguramente até a outra ponta.

E pensar que ano passado estava eu, meus pais e meus irmãos viajando, passamos o natal e o ano novo todos juntos. Desde a época em que começou minha maratona de vestibulares eu não passava o ano novo com todo mundo junto e misturado. O natal a gente até ficava junto, mas eu sempre tinha aquela cobrança de estudar e não conseguia aproveitar nada… enfim, é muito esquisito olhar para um ano atrás e perceber que minha vida virou de cabeça para baixo. Nesse ano me senti realmente dividida entre as novas ‘duas famílias’, e confesso que tenho o medo de perder os laços com meu pai. Além dessa sensação desconfortável, ter que aturar olhares e perguntas de familiares sobre o divórcio dos meus pais têm sido um saco. Aliás, todo esse processo tem sido um saco.

E por todo esse redemoinho de sentimentos estar ocorrendo agora, no natal e no ano novo, é que tenho pensado mais do que nunca sobre o significado desses dois momentos. Há quem diga que são apenas datas comerciais, hipócritas e blablablás. É verdade, não nego. O apelo comercial desses períodos é gigante e já ‘faz parte’. Mas não é sobre isso que quero falar.

Queria dizer que tenho pensado a todo instante para quais caminhos estou conduzindo minha vida e meus relacionamentos, e se estou segura de mim. Pensado se é possível reconstruir relacionamentos ou reforçar os laços já existentes. Pensado se será possível alguma vez, algum ano, me sentir bem em estar com a família (tanto do meu pai quanto da minha mãe) reunida e me sentir bem, me sentir realmente parte dela. Porque estou farta de precisar cumprir protocolo familiar e estar apenas em corpo nos lugares, com a mente além em qualquer lugar distante. Estou farta de precisar sorrir e fingir uma falsa intimidade com familiares que, durante todo o resto do ano, troco meia (ou nenhuma) palavra.

Também tenho pensado sobre relacionamento. O começo, o meio, e o fim (ou não) de uma amizade, de um amor, de um vínculo familiar. Não acredito em paixões eternas e nem que os pais e o filhos devem a tudo perdoar e a todo custo manter o vínculo que os une. Mas acredito que, por mais que as algumas coisas mudem (e muito), outras se mantém (ou deveriam se manter) intactas.

Por exemplo, quando um relacionamento amoroso tem um fim, embora as duas partes estejam magoadas (uma mais que a outra, ou as duas destruídas), é preciso que a ruptura, a qual por si só já é desgastante, se dê de forma mais respeitosa possível. É preciso lembrar das coisas boas, do passado junto, e tentar não magoar ainda mais. O mesmo vale para os amigos e a família.

Sabe, porque as pessoas simplesmente ligam o ‘foda-se’ para os sentimentos de quem, outrora, foi seu/sua companheira de vida? Não estou pedindo que fiquem juntos para sempre, amigos de berço, mas sim um mínimo de cuidado para evitar esfacelar ainda mais o que já tá trincado ou aos cacos. Um mínimo dever de cuidado e respeito com o próximo, penso eu. Fins fazem parte da vida, mas não precisam ser tão dolorosos.

O bom de tudo isso, de todos questionamentos e sentimentos revirados, é que toda bagunça precede uma boa arrumação. E por mais difícil que seja, é bom tentar colocar a casa em ordem, a mente em ordem. Seguirei tentando.

“Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente!
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-as.
Se perder um amor, não se perca!…
Se o achar, segure-o!
Circunde-se de rosas e ame…
O mais é nada”.

Fernando Pessoa