Meu deus

Meu deus, faz um ano desde que descobrimos que meu namorado estava com câncer.
Foram doze sessões de quimioterapia, mais vinte de radioterapia. Foram dias de angústia pela saúde dele, foram dias de culpa minha. Foi um ano novo estranho. Foram tantos sentimentos difíceis. Foi o início da terapia (me rendi, me encontrei). Foi a retomada, aos poucos, da confiança. Graças a deus saúde novamente. E, agora, novas perspectivas e um futuro incerto.

Meu deus, eu vou me formar. Aquela agonia toda registrada aqui passou faz cinco anos. Mas ela ainda está aqui, guardadinha. E está dentro de mim, também. Engraçado que a lembrança dos tempos de cursinho ainda me é muito forte. Foi um dos períodos mais estressantes e angustiantes pelos quais já passei, e de lembrança ficou comigo uma ansiedade contra a qual tenho lutado.

Meu deus, meus pais se divorciaram faz uns anos e todo dia ainda é algo novo. Todo dia é uma reconstrução de relacionamento, é uma tentativa de voltar a me sentir bem com eles e suas respectivas famílias.

Meu deus, todo dia é um dia de saudade das coisas que não vivi – e de algumas que vivi também. É uma tentativa de ser inteira em tudo que faço. De materializar meus sonhos.

Meus deus. Às vezes viver é tão doloroso. Às vezes fico retomando pensamentos de momentos que eu gostaria que tivessem parado no tempo. Fico relembrando cheiros, toques. Por quê?

Meus deus, ainda bem que todo dia é dia de cantar. Só assim eu aguento.

Resumo de 2015, bem-vindo 2016.

Acredito que um dia a mais é, também e sempre, um aprendizado a mais, e que até mesmo dentro da rotina pequenos acontecimentos – detalhes, talvez – podem provocar uma revolução imensa dentro de nós. E o ano passado não fugiu à regra, pois foi de intenso aprendizado.

2015 foi um ano cheio de revoluções internas, marcado por uma rotina agitada e tranquila ao mesmo tempo, mas sempre alegre. Foi, também, marcado por fatos tristes e ruins, os quais ao menos contribuíram como combustível para essas micro revoluções.

2015 foi o ano que jogou na minha cara que devo ser menos permissiva com circunstâncias que não gosto, devo aprender a dizer mais nãos se quiser ter paz, pois caso contrário o acúmulo de angústia e irritação pode me levar para caminhos que não gostaria de trilhar. E, de outro lado, também jogou na minha cara que devo deixar de arrumar desculpas e de colocar meus desejos de lado – é preciso gastar energia para romper com a inércia e fazer o que realmente tenho vontade (como li uma vez por aí, quem quer arruma um jeito, quem não quer arruma uma desculpa).

2015 também foi o ano que me mostrou o ‘poder da rotina’ (pequenas mudanças de hábito que, pouco a pouco, transformam-nos completamente!) e que consolidou a noção de que cada coisa tem seu tempo certo de ser, ajudando a controlar minha ansiedade.

Por fim, o que esperar de 2016? Consolidar o que aprendi em 2015 (dizer mais nãos; procurar meios de realizar os meus sonhos e parar de arrumar desculpas para minha inércia; adequar e organizar minha rotina para realizar meus projetos) e ter mais paz e saúde. Espero que seja um ano com mais fatos marcantes bons do que ruins. É isso.

Será que um dia vai dar certo?

Quando começamos a trabalhar e a conquistar nossa independência financeira, é impossível não deixar de pensar no sonho de ter a casa própria. Um cantinho pra chamar de “meu”, (des)arrumado do meu jeito. Quando pequena, adorava jogar The Sims e montar a casa dos sonhos, visitava sites de decoração imaginando como seria a minha.

Acontece que agora, podendo fazer um planejamento financeiro, juntar uma grana suficiente para comprar uma toca qualquer não é tarefa fácil. Nunca foi, mas com o preço dos imóveis nas alturas, parece impossível. Já me conformei que talvez só consiga morar antes dos 30 ou em regiões centrais desvalorizadas, ou em regiões periféricas. O problema é que ainda assim é muito difícil juntar um bom dinheiro para dar de entrada em um financiamento (e consequentemente diminuir o valor das parcelas) e ainda assim ter algum ‘resto’ para a decoração.

Morar num apartamento no centro de São Paulo não é má ideia, porque além de ser perto do meu trabalho, é uma região cheia de serviços, transporte público, enfim, dá pra se viver sem carro e bem perto de teatros, bares, cinemas. Mas queria mesmo é morar em casa, com churrasqueira ao fundo, janelas bem grandes, um jardim gostoso e espaço para ter cachorros. Será que dá para conciliar isso com as facilidades (e problemas) de morar na região central? Também existe a possibilidade de alugar um imóvel, mas sem a liberdade de poder usar dele como quiser, por exemplo, fazer reformas.

Será que um dia vai dar certo? Por enquanto sigo sonhando e guardando dinheiro.

O meu Amor, tem um jeito que é só seu.

ARTE DE AMAR

“Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.”

Manuel Bandeira

*

Quando ainda me sentava nas carteiras do Ensino Médio eu apreciava as aulas de literatura. Apreciava em especial a maneira como os escritores e poetas descreviam seus sentimentos, principalmente o amor. Cada escola literária tinha seu quase-padrão (porque na realidade eles nunca existem) tipos de amor. Amor romântico, amor utópico, amor sensual… Na passagem do tempo, alguns amores foram construídos com olhares e mãos dadas. Outros arderam com beijos e noites inesquecíveis. Alguns foram construídos em nuvens, sonhos apenas… alguns nasceram de amizades, outros sempre estiveram escritos…

Qual é o amor dos tempos de hoje? Já ouvi especulações sobre ele ser líquido, amor-consumo. Amor sexo-delícia-delivery. Beijos deliciosos, orgasmos alucinantes, só por uma noite. Um cardápio variado e infinito de amores, tão infinito quanto o desejo de consumi-lo parece ser. Já ouvi críticas a respeito desse amor-moderno, ouvi dizer que ele é feito de relações fracas, não perdura no tempo.

Não sou a pessoa mais romântica do mundo, manifestações públicas de afeto me causam pavor e comédias românticas não entram na minha lista de filmes preferidos mas, apesar dessa aparente frieza, por dentro sou uma paçoca derretida. Sexo-delícia-delivery não me interessa. Nasci na geração líquida e, por óbvio, fugir dessa realidade é difícil. Mas essa realidade não me satisfaz. O amor aquém de qualquer explicação é que faz parte de mim, e hoje talvez só os livros de literatura consigam traduzir um pouco do que eu vibro.

Eu acredito no amor doação sem anulação. Acredito no amor-companheirismo de cobertor e brigadeiro em noites frias, mas também no amor-pensamento ao deitar a cabeça na escrivaninha, tentativa de descansar do cotidiano. Acredito no amor que aquece a alma quando vê o sorriso da pessoa amada. Acredito no amor que sobrevive à distância, às brigas, à falta de contato. Amor que sobrevive à própria vida, mantendo-se vivo com lembranças e sonhos.

Eu acredito no amor-contradição, mistura de tristeza e doçura. Acredito no amor querer-bem, ainda que a contra-gosto, ainda que isso custe distâncias. Acredito no amor que nem sempre pode estar junto, e também no amor que nem sempre se entende.

Amar é um exercício pessoal, íntimo. Meu amor é do tamanho do mundo, ou maior. Amar não exige explicação, não exige contrapartida, não exige nada. Amor não se anula, não traz infelicidade – embora às vezes possa ser acompanhado da tristeza. O meu amor não exige que o outro seja algo que não é. O meu amor tem momentos tristes, ele entende que nem sempre é bom ficar junto – pode ser que o junto destrua os dois lados.

Eu acredito no amor-liberdade. Só os livres amam de verdade, ainda que por vezes doa. E muito.

E é por isso que Manuel Bandeira tinha razão quando escreveu ‘Arte de Amar’. A alma só encontra satisfação em Deus, o Deus de cada um: a tentativa solitária de tentar entender o propósito de viver e as possíveis razões para os fatos inexplicáveis da vida. O meu Amor só encontra conforto em algo que não entendo, algo que chamo de Deus porque me dá forças, não sei de onde e nem por qual propósito, para seguir e tentar ser alguém melhor, com um coração bom, capaz de ser feliz com a felicidade de outras pessoas. Sem inveja, sem ciúmes, sem ressentimentos. É muito difícil, ainda procuro entender meu Amor.

Mas meu Amor é tão difícil, tão complexo para mim, que por isso mesmo ele não é capaz de se comunicar com outra alma. Ele faz parte da minha alma, e os corpos se entendem, mas as almas não.

A Porta

– Fecha a porta.

– Não não, vou deixar aberta pra entrar um ar mesmo.

– Mas tá de noite, olha as horas!

– O ar da noite é mais fresco.

– É perigoso, nunca se sabe se pode vir um bandido! Semana passada parece que a casa da Jô foi assaltada!

– Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.

– Exato, agora pode ser nossa casa, fecha a porta Carlos!

– Não vou fechar não, se você quiser fechar, feche-a você. Arre, quanto medinho por nada. Fica vendo Datena de tarde, dá nisso.

– Nisso o que?

– Nesse medo louco que você tem de tudo, até de uma porta aberta pra entrar um ar.

– Aberta pra entrarem na nossa casa, é isso que você quer dizer né. Se quer que entre ar, abra as janelas, uai!

– Não é a mesma coisa. Só uma porta aberta tem as sensações de frescor e liberdade tão difíceis de encontrar nesse calorzão dos infernos.

– Mas Carlos, querido, se quer vento abre a porta do quintal, abre as janelas, liga os ventiladores… Mas não deixe a porta assim, escancarada, de noite!

– Você tem medo do que, Daniela?

– Medo do que todo mundo tem, de morrer.

– Acha que uma porta aberta de noite vai te matar?

– Não, mas pode ajudar, facilitar. Nunca se sabe, vira um convite pra bandidos, gente mal intencionada. Se sabem que a casa é cheia das rapariga, vai que surge até um safado sem vergonha que tente se aproveitar das meninas! E você é louco, com essas lorotas de frescor e liberdade. Pra que tanta frescura? E essa bobagem de liberdade? Santo Deus! Livre você não vai é ser na mão de delinquentes!

– Dani… Mas é que… perdemos tanto de nossas vidas por causa desses medos bobos. Quero dizer…  É claro que existem riscos. Mas eles estão soltos por aí, espreitando as vítimas do acaso. Ninguém está sempre seguro, e nessa de querer preservar tanto a vida, perdemos ela em detalhes. É a feijoada da Tia Maroca cheia de gordura, vai que aumenta meu colesterol e me mata do coração? É o cigarro não fumado, vai que dá câncer, não é mesmo? A cerveja não bebida, o doce não saboreado, a paixão não vivida. Quantos momentos bons perdemos para evitar suas consequências, seus riscos!

– Você deu agora de fumar, safado? Se a gente tá junto é porque eu não esperava ter segredos com você, se tiver que falar alguma coisa fale de uma vez, não fique dando voltas e voltas pra me enrolar! Desde quando você fuma? Quem te colocou nessa roubada? Certeza que foi o Vitinho, CER-TE-ZA! Tinha que ser aquele safado, bêbado e arrogante!

– Não não Dani! Que fumar o que! Eu não fumo, foi um exemplo! É um prazer que não faço questão de ter, acho fedido, sei lá! E o Vitor não tem nada a ver com isso, porque você vem com essas agora? Me deixe terminar!

– O que é, então?

– É que eu acho que temos, as pessoas todas, medos demais e vida de menos. Não to falando em ter uma vida libertina, mas o equilíbrio é fundamental. Depois de ficar preso horas no trânsito, no calor dos infernos, eu quero sentir a brisa vinda da porta. Por que não posso ter esse prazer, tão simples? Enquanto você fica aí, assistindo Cidade Alerta, Datena e outros lixos da vida, alimentando medos e mais medos, por que não se aconchega aqui comigo, abraçadinha, sentindo o frescor da brisa? Eu pego uma cervejinha pra gente, frito uns pasteizinhos de carne seca com catupiry que sei que você adora. Tenho certeza absoluta, você vai gostar Dani. Desligue isso aí e vem pra cá, amor. Vamos viver de verdade, pelo menos um pouquinho!

– Arre Carlos, você tem é problema. Durma na sala então. Pegue suas coisas e fique à vontade aí, com sua `brisa` ou seja lá o que for. Vou trancar essa porta. Assim, se entrar algum maníaco, só pega você. E feche as cortinas pras vizinhas fofoqueiras não ficarem comentando que te coloquei na sala, podem espalhar fofoca de que estamos nos separando e não quero conversinhas pra cima de mim depois.

– Dani…!

– Sem conversinha pra cima de mim também. Boa noite!

– Boa noite, amor…

Daniela trancada. E Carlos, de portas abertas.

Nada melhor que…

acordar cedo, café, trabalho, estudo, almoço, café, trabalho, estudo, cansaço, mil sonhos por fazer, até um pouco de ansiedade, muita muita vontade, dormir tarde, exausta, dormir pouco e, aos finais de semana, sair, dormir, estudar e recarregar tudo de novo… é uma delícia viver sentindo-se viva.. melhor ainda com pão na chapa e chamego pela manhã

Ir e vir

Algumas pessoas vem e vão. Outras ficam durante umas horas, dias, meses, anos.. mas se vão também. Talvez voltem. E quando voltam, é uma surpresa e nostalgia incomparáveis.

Esses dias reencontrei pelo facebook alguns grandes amigos dos quais a rotina, dia-a-dia, diferenças que surgem com o tempo, separou. É engraçado notar como mudamos e, ainda assim, continuamos um pouco os mesmos… Os corpos mudaram, as vozes, a rotina de cada um de nós mudou e por mais que não tenhamos mais um ponto de tangência entre nossas vidas, o carinho se mantém. Manteve-se por longo tempo apesar da distância bem grande de alguns cinco anos,por aí.

Nos reencontramos, e é muito bom poder conversar de novo. O reencontro depois de muito tempo tem um quê de especial, talvez porque demonstre que no fundo, bem lá no fundo, talvez no canto de uma caixa de fósforo guardada num armário de memórias velhas, um pedacinho de carinho e lembrança mantiveram-se vivos por todo esse tempo.

ps* Não sei por que, mas o player com o vídeo não está aparecendo =/ Fiquem com o link então!!
Bossa N` Roses – November Rain

Bossa n` Roses – November Rain
“When I look into your eyes
I can see a love restrained
But darlin’ when I hold you
Don’t you know I feel the same

‘Cause nothin’ lasts forever
And we both know hearts can change
And it’s hard to hold a candle
In the cold November rain

We’ve been through this such a long long time
Just tryin’ to kill the pain

But lovers always come and lovers always go
An no one’s really sure who’s lettin’ go today
Walking away

If we could take the time
To lay it on the line
I could rest my head
Just knowin’ that you were mine
All mine

So if you want to love me
Then darlin’ don’t refrain
Or I’ll just end up walkin’ In the cold
November rain

Do you need some time…on your own
Do you need some time…all alone
Everybody needs some time… on their own
Don’t you know you need some time…
All alone

I know it’s hard to keep an open heart
When even friends seem out to harm you
But if you could heal a broken heart
Wouldn’t time be out to charm you

Sometimes I need some time…on my own
Sometimes I need some time…all alone
Everybody needs some time… on their own
Don’t you know you need some time…
All alone

And when your fears subside
And shadows still remain
I know that you can love me
When there’s no one left to blame
So never mind the darkness
We still can find a way
‘Cause nothin’ lasts forever
Even cold November rain

Don’t ya think that you need somebody
Don’t ya think that you need someone
Everybody needs somebody
You’re not the only one
You’re not the only one

Don’t ya think that you need somebody
Don’t ya think that you need someone
Everybody needs somebody
You’re not the only one
You’re not the only one

Don’t ya think that you need somebody
Don’t ya think that you need someone
Everybody needs somebody
You’re not the only one
You’re not the only one

Don’t ya think that you need somebody
Don’t ya think that you need someone
Everybody needs somebody”

Resíduos: de tudo fica um pouco

“De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
? vazio ? de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil…
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver… de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.”

(Carlos Drummond de Andrade)

É aí que tá!

“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem..”

“Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”

“Viver — não é? — é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver mesmo.”

 Guimarães Rosa

*

E não é que enlouqueci? Surtei, desandei, desvairei! Ando no meio fio, pulo bueros e corro pro ponto. Depois, ainda consigo me apaixonar, apaixonar, apaixonar por tudo que vejo! Se não é a árvore, cheia de flores, linda? Se não é o raio de sol, por entre as nuvens, divino? Se não são vocês, dentro de mim, amores? Problemão esse ser-apaixonado! Problemão, porque se perde, vive perdido, no labirinto que é não saber o que fazer, e fazer tudo certo e errado ao mesmo tempo… mas é bom, gosta tanto de sonhar!

Todas pessoas tem labirintos, é verdade. Mas o meu é diferente. É cheio de imaginação. E nesse cenário novo, de paredes novas e pinturas desconhecidas, não sei o que fazer, e acabo fazendo tudo errado.

Tudo errado.. do mesmo jeito que fizeram comigo. Errado.

É, brincar de viver em montanha-russa não vai ser fácil… Acorda menina!

Efeitos

 Retrato de uma francesa – 1946 –  Pablo Picasso


         É assombroso o efeito que tudo me causa. Chuva, sol, vento ou até mesmo um sorriso já conseguem mexer com meu dia, deixando-o mais feliz… Mas a falta de tudo também me causa um enorme efeito. Me deixa morna, meio pra lá e meio pra cá, assim, sem saber de nada e querendo tudo, ao mesmo tempo.
Aquele calor do abraço me faz falta, sabia? A risada das bobagens também me deixa uma dorzinha de saudades. E as horas corridas, que voavam na tarde e na noite – porque dia era pra dormir – também deixaram marcas.
Pior de tudo é não ter a cumplicidade, a parceria, essa sensação de completar o quebra-cabeça… Sinto tanta falta! E essa falta me dói por dentro, me deixa sem respirar direito, inquieta!
A falta me machuca. A gotinha da chuva, o calor do sol e o passar do vento tão aí pra compensar a falta e me curar. Depois de vocês, só eles me fazem sentir viva…