25 de novembro

Às vezes a vida faz a gente ter vontade de se jogar de um precipício. Ela faz questão de dar aquela sensação de que nada pode piorar, ou que está tudo bem, quando, de repente, o chão vira areia, e tudo vai-se embora, muda com uma velocidade tão rápida que somos quase sugados pelo vento que faz… e que vento é esse, senão aquele de quando a gente se joga de um precipício?

Só que a vista da pedra é tão mais bela, que talvez se jogar não seja boa idéia. E sim ficar lá, assim, só observando. Sei lá. O tempo frio e seco, a luz quase escondidinha atrás da cidade, tudo isso vai passar. Mais hora, menos hora, o dia volta. E a vida descomplica, ainda que por uns instantes, e esses instantes fazem valer a pena… até ruir de novo, e ser preciso confiança e fé para aguardar mais um dia.

Machismo nosso de cada dia

Por esses dias, durante uma inconversa informal com irmão, primo e namorado, meu irmão mostra alguns vídeos e fotos pornográficas que recebeu de amigos pelo whatsapp. Até aí nada de anormal.

Só que as fotos não foram feitas por empresas da ‘indústria pornográfica’, e nem eram ‘brincadeiras’ de mulheres adultas publicadas ou vazadas. As fotos e vídeos se tratavam de garotas um pouco acima dos quinze anos, mas não mais que dezoito.

Perguntei de onde ele tinha recebido aquelas fotos, ele me disse que amigos estavam compartilhando, que eram garotas de um colégio aqui do bairro, inclusive uma delas seria irmã de um colega dele.

Por óbvio as garotas que tiraram as fotos:

1) ou enviaram para alguém que acreditavam ser de confiança, e vazou na internet

2) ou tiveram seus celulares fuçados e fotos vazadas pelo próprio aparelho delas

A primeira impressão que eu, como mulher e jovem, tive ao ver tais imagens foi aversão e repreensão. Que absurdo! Como as meninas tiveram a coragem de fazer uma coisa dessas, e ainda compartilhar? Será que elas não sabiam que poderiam cair nas redes sociais, e o tamanho da repercussão que tal fato geraria? Seria uma mancha que perduraria durante toda a juventude, quiçá respingaria até na vida profissional. Seriam para sempre as meninas que tiraram fotos peladas ou se filmaram em intimidades. Seriam as ‘vadias’.

Dentre todas as coisas que vi, o que mais me chocou foi um vídeo. Era uma garota, de uns 16 anos, transando com dois meninos ao mesmo tempo, com a música da introdução da novela ‘Amor à vida’ da rede Globo ao fundo. No vídeo, um dos meninos filma a garota por trás. Ela vira para ele, pega o celular, vira a câmera do celular para ela e diz: ‘tá filmando né? tem certeza que tá ligado?’

Ora, ela sabia o que estava fazendo. Talvez não tenha noção das consequências, mas que sabia, sabia.

Depois de um tempo me veio à mente porque eu repreendi o comportamento da garota nesse vídeo, e não dos meninos. Estavam todos pelados, todos fazendo sexo, todos menores de idade. E só repreendi a garota. Por que?

Depois é que me toquei do quão imbecil eu estava sendo.

Não estava avessa ao fato de serem adolescentes. Sou da geração na qual adolescentes têm relações sexuais, quer os pais queiram ou não, é um fato. Então, de certa forma, isso não é novidade alguma pra mim. Só que fiquei avessa ao fato das garotas terem se ‘exposto tanto’.

E é aí que me peguei sendo machista. E é aí que há um dos maiores dilemas do feminismo.

Uma mulher que se expõe de tal forma, é para se satisfazer ou satisfazer os homens? E se ela gostar de satisfazer homens, qual o problema nisso? Ela tem menos ‘autonomia’ sobre o próprio corpo por isso?

Se elas quiseram se expor, qual o problema nisso??

É claro que a sociedade É machista, é claro que ELAS sairiam prejudicadas. Isso é um problema, num primeiro momento. Mas sem a polêmica, tal assunto não é discutido. É preciso mudar a mentalidade das pessoas.

Mas antes de querer mudar os outros, é preciso que eu mude a mim mesma. E não é fácil desapegar de tanto machismo.

Ah! Menino…

Eu gosto de ti, sabia?

Sua mão na minha. Seus lábios nos meus. O quentinho dos abraços.

Sentir seu coração bater pertinho do meu.

Ver seus olhos fechando de sono e, ainda assim, seus braços em mim agarradinhos.

Menino, você é cheio dos chameguinhos.

E sabe o mais de tudo? Só eu sei o quanto são sinceros.

Amo você.

Tá, então…

É assim mesmo. Frio na barriga. Sufoco na garganta. Olhar para trás e desentender o que viveu.

É, é assim mesmo. Tá aí a ponte entre o que é, o que poderia ter sido, o que de fato foi.

Quem tem medo, fica sempre à margem.

Quem tem medo, se move rápido demais, às vezes lento demais.

O que fazer com esse medo?

Vou misturar tudo e beber.

Coisa ruim não dá.

 

Quase

Quase…

“Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.
Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.
Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “Bom dia”, quase que sussurrados.
Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.
Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.
O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém,preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.
Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.”

Sarah Westphal Batista da Silva

“Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.
Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.
Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “Bom dia”, quase que sussurrados.
Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.
Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.
O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém,preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.
Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.”

Sarah Westphal Batista da Silva

17 de junho de 2013

Não sei o que está acontecendo, mas é uma delícia essa experimentação toda. Hoje fomos às ruas, quem sabe o que vai ser o amanhã? Nunca tinha sentido tamanha energia – mesmo em outras manifestações. Lindo. Ver o reflexo dos milhares nos prédios espelhados da Faria Lima foi emocionante. Lindo demais. Sem bombas, sem balas, sem gás. Foi pacífico, agregador, solidário. Espero que essa seja a primeira vez de muitas, primeira vez que mude a cultura do brasileiro de se acomodar diante das adversidades. Não sei o que adiantará sair do sofá e ir para às ruas… talvez seja um mecanismo de pressão visual, pelo menos um ’empurrão’. Mas isso só não basta. Tem que continuar em cima, fiscalizar, exigir. Educar, aprender a resolver os problemas também.

17 de junho de 2013 vai entrar para a história, e estou muito feliz de ter escrito um pouco dela.

Tempo, tempo, tempo, tempo…

Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo…

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo…

*

Semana passada esteve em evidência na mídia o caso de três garotas mantidas em cativeiro, por dez anos, que conseguiram se libertar depois que uma delas se arriscou a pedir socorro aos vizinhos enquanto o algoz não estava em casa. Esse fato bizarro e assustador gera vários questionamentos. Como ficaram tanto tempo presas sem ninguém desconfiar? Como o agressor/estuprador/sequestrador convivia naturalmente com os vizinhos, sem criar suspeitas? Essas dúvidas são comuns, mas não são elas que me despertaram incômodo.

O que me cutucou depois dessas notícias foi pensar como essas garotas iriam reconstruir a própria vida. Além da liberdade e da dignidade que lhes foi retirada durante todo esse tempo – DEZ anos! – , também outra ‘coisa’ muito valiosa e que, geralmente, não recebe tanta atenção, lhes foi roubada: o tempo. Tempo. A época do colégio, o início da vida universitária ou do futuro profissional. Todas as tecnologias que evoluíram no período – imaginem, elas nunca viram um Iphone, Ipad e outros tantos ‘ais’, provavelmente nem sequer conheçam as ‘redes sociais’. Não viram também as eleições do Obama (as duas!), nem a Crise da Bolha Imobiliária de 2008. Talvez tenham até ouvido falar (soube que uma delas sabia da repercussão de seu desaparecimento na mídia), mas não puderam discutir, ‘sentir’ esses fatos.

Serão capazes de reconstruir a vida? Eliminar o passado? Esquecer as humilhações? As torturas? O medo? A tristeza?

Não sei vocês, mas eu sou uma pessoa muito, muito emotiva. Às vezes é difícil segurar o choro ainda que eu saiba, racionalmente, que ele não é necessário. Infelizmente, soma-se à minha emotividade o meu rancor acumulado. Sou uma pessoa bem rancorosa – pelo menos bem mais do que gostaria de ser. É difícil esquecer o que me magoa, quem me magoa. Mas, mágoas são mágoas. Quem nunca levou uma bofetada nas expectativas? Quem nunca se sentiu traído, enganado, abandonado, largado ao relento (exatamente nesses ‘extremos’) por amigos, familiares, namorad@? Quem nunca perdeu (ou perderá) para sempre aquela pessoa especial da família? Quem nunca se sentiu ‘marcado’ por alguma tristeza ou trauma?

Creio que todos já sentimos algo assim. Alguns mais, uns menos. Alguns com mais impacto, outros com menos. Mas eu garanto a vocês: por mais ou menos mágoas que tenhamos, nunca esquecemos. Essas meninas jamais vão esquecer o que viveram. É como se esses sentimentos do passado estivessem tatuados nas entranhas. E pensar que tais marcas são impossíveis de apagar, talvez soe pessimista, mas… que soe, é a verdade. Verdades doem.

E é assim… A tristeza, no canto, sozinha. Às vezes ela bate na parede, tenta quebrar o vidro e pular para fora da alma na forma de lágrimas. Por vezes consegue. Superar é esquecer? É? Por um tempo eu pensei que fosse. Acreditava fielmente que, com paciência e esforço, conseguiria apagar metade das minhas ‘tatuagens intrínsecas’. Nem 0,0001 consegui. É impossível deletar.

Talvez só o tempo, esse mesmo que foi roubado das meninas, possa ajudar na cura. O tempo não cria esquecimento. O que ele faz é nos ajudar a seguir a vida, é colocar na gaveta essas memórias ruins. Atrás da porta, os sentimentos escuros. Cria espaço e esperança para os sentimentos bons. E é ‘só isso’ que resta. Tempo, tempo, tempo, tempo…

Doçura

A maior parte dos dias é corre-corre, mais-do-mesmo. Mas hoje foi diferente. Sabe aqueles detalhezinhos que fazem seu dia ficar mais feliz, ainda que por alguns instantes?

Na plataforma do metrô, aguardando pelo trem, estava um menininho de mãos dadas com a mãe.

– Filho, fica perto da mamãe. A gente vai esperar o metrô aqui.

– Ele é grande mãe?

– É grande sim, olha, o que vai chegar é igual aquele ali do outro lado.

– Ahh! (olhos brilhando)

– E a gente vai entrar nele?

– Vamos sim, mas fica de mãos dadas com a mamãe pra não se perder.

Nesse instante, chega o trem que aguardávamos e, com ele, aqueles quase-sussuros e arrepios de som e vento, sinais do movimento rápido.

– Nossa mãe, que rápido, to com medo, não quero entrar!

– Calma filho, a gente vai dentro. Não é tão rápido dentro!

Olhei para a moça com o olhar de ternura que dois desconhecidos às vezes trocam quando se deparam com tamanha ingenuidade e, dispensando palavras, precisam compartilhar desse momento simples – muito curto – que traz algum conforto, algum sentido para a vida.

–  É a primeira vez que ele anda de metrô!

– Ah, que fofo! Eu lembro da minha primeira vez também, mas eu era mais velha do que ele.

– É, e hoje ele andou de ônibus também! Está assustado!

Voltamos a olhar o pequeno.

– Pronto filho, agora entra. Fica perto, cuidado, ó!

– Nossa mãe!! Que gelado está aqui dentro!

(Nessa hora eu pensei, ‘ainda bem que ele não teve que passar pela experiência de estar quente e lotado, talvez o tanto de gente fosse assustar mais do que  a rapidez da lataria’)

– Você já veio passear aqui, quando estava dentro da minha barriga, sabia?

– Nossa, verdade mãe? Eu não lembro!

– É que você tava dentro de mim, pequenininho, mas passeou sim! Mamãe sempre vinha com você aqui.

– Uau! Olha lá fora mãe!

Segui meu caminho e a jovem mãe, junto com seu pequeno, também. Mas não pude deixar de observar as perguntas do garoto. Era notável o deslumbre que ele viveu naquele momento, as descobertas. O metrô era grande, rápido – de dar medo. E dentro era gelado e lento. E iria levá-lo para o lugar que quisesse ir, mais rápido que ônibus, carro, ou a pé. Perguntas simples, assim. Respostas simples, também; mas não por isso menos importantes.

A simplicidade é incrível, e quando toca a gente até estremece – de ternura.

But honestly, won’t someone stop this train?

Tem dias que me pego apertada de saudade, olho para o abajour na escrivaninha e lembro de muita coisa. É engraçado, porque se pudesse definir um sentimento que me acompanha desde que me conheço, esse sentimento seria a saudade.

Saudade das coisas que não vivi, saudades dos amigos com quem não falo mais, saudades de palavras, de ideias, de sentimentos puros.

Vai ver essa ‘saudade’, essa sensação de incompletude constante, é o combustível que me move. Muitas vezes sinto me perder no meio do caminho… mas é questão de tempo até tudo voltar para os trilhos.

E você? Qual o sentimento que te move?

Esses dias sonhei com meu avô, e daqui algumas semanas completarão quatro anos que ele virou estrela. Estrelas brilham.

glowpuc1“Don’t stop this train
Don’t for a minute change the place you’re in
Don’t think I couldn’t ever understand
I tried my hand
John, honestly we’ll never stop this train”